9. Entrevistas

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Entrevista concedida a Dan Ferreti, graduado em jornalismo por uma universidade de Vitória-ES, para publicação em House Organ institucional de sua empresa: 

 

Dan Ferretti – Consultor, poeta, ensaísta, contista... Em quantos estilos o senhor já se expressou nos seus textos?

Luiz Roberto Bodstein – Se você se refere aos já escritos e publicados apenas na internet, perto de 30, se não me engano. Mas destes vinte deles foram distribuídos por 13 livros. 

DF – Com quais deles mais se identifica?

LRB – Com os ensaios, sem dúvida, em se tratando de prosa. Em poesia eu curto mais escrever cordéis, sonetos e rondéis, nessa ordem. 

DF – Alguma razão especial para tais preferências?

LRB – Os ensaios porque se prestam mais como oportunidades de auto-conhecimento do que como obra literária. Digo que, ao terminá-los, descubro mais sobre mim mesmo do que imaginava que sabia, pois que ajudam a organizar os meus conceitos de vida e acabo aprendendo muito com o que leio em seguida. Dos estilos poéticos o cordel passa aquela mensagem ingênua e romântica que a gente costumava encontrar no interior do país antes da tecnologia vomitar tanta informação e uniformizar os costumes. É uma linguagem tipicamente nossa, personificando a imagem do caipira descobrindo o amor, sofrendo as cicatrizes que o mundo lhe deixa, acordando para as decepções humanas, enfim, naquela sua linguagem bem típica e peculiar. 

DF – E os outros dois?

LRB – O soneto pela história que carrega. O estilo mesmo em si, de duas quadras e dois tercetos, é relativamente simples para se escrever. Gosto é do significado de que vem carregado desde o seu apogeu ocorrido nos salões da nobreza do século XVII. Acho interessante acompanhar a evolução de conteúdo por que passou desde então sem se distanciar do formato de origem. O rondel já é diferente: cruza e repete alguns versos nas diferentes estrofes, e o estilo em si é bem interessante por desafiar a criatividade de qualquer poeta. Inspirado nesse cruzar de rimas do rondel e nos poemas minimalistas eu desenvolvi um estilo próprio que reúne um pouco dos dois, que chamei de “diminuto”.

DF – Interessante! Já estão publicados em livro?

LRB – Os rondéis e os sonetos sim. Os diminutos ainda são em número bem reduzido, pois que os criei recentemente. Quando tiver um volume suficiente de poemas pretendo publicá-los algum dia. 

DF – Vi que o senhor também tem livros técnicos sobre assuntos das consultorias que executa nas empresas. Como é escrever poesias e conteúdo técnico ao mesmo tempo?

LRB – (Risos)... Não tem muito mistério já que o consultor e o poeta não se misturam quando suas respectivas atividades são desenvolvidas. Tem alguns assuntos técnicos que me fascinam quase tanto quanto algumas obras poéticas que escrevi. 

DF – Quais, especificamente?

LRB – Qualidade, por exemplo, em todas as suas variáveis, Planejamento Estratégico também é outro assunto de que gosto muito. Trabalhei com Qualidade Total no auge de sua implantação no Brasil, e graças a esse trabalho desenvolvido ao longo de 15 anos, ininterruptamente, pude conhecer bastante a realidade do meu país. Percorri mais de 650 municípios pelos 27 estados da União, tanto nas capitais quanto no interior. Posso dizer hoje que conheço de perto a realidade do que se faz nesse país, do Oiapoque ao Chuí. 

DF – Sempre atuou em áreas de cunho técnico?

LRB – Por incrível que pareça minha origem em consultoria foi na área humanística, atuando em Gestão de Pessoas. Quando descobri a Qualidade Total, na transição da década de 80 para a de 90, fiquei profundamente interessado pelo tema, e tive a oportunidade de mergulhar fundo na atividade e me especializar em Gestão de Processos, chamado que fui a trabalhar para uma das três nucleadoras da Qualidade nomeadas pelo Governo Collor, que foi a mais gratificante experiência de minha vida. 

DF – Quais eram essas nucleadoras?

LRB – O pioneirismo chegou com a Fundação Cristiano Otoni, comandada pelo Falconi. Depois vieram a Fundação Vansolini (ligada à USP) e o IBQN no Rio de Janeiro, que foi a minha grande escola e posso dizer que devo a ela toda a experiência que tenho hoje na área.

DF – IBQN é...

LRB – Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear. Foi criado pelo Governo Federal para garantir a qualidade da construção das usinas nucleares em Angra dos Reis. Diversificou depois para Qualidade Total em centenas de empresas públicas e privadas, e atuei em grande parte das estatais e nas maiores organizações do setor privado do país. Foi uma experiência ímpar. 

DF – Inclusive em Ministérios?

LRB – Certamente. Só em Brasília permaneci ao longo de um ano e meio morando em apart-hotel de segunda a sexta enquanto implantava programas de qualidade em quatro deles. O IBQN chegou a bancar uma suíte permanente no Kubitschek Plazza para que eu pudesse conduzir os projetos no GDF. 

DF – Quais foram?

LRB – Hmmm, deixe ver:  Ministérios da Justiça, da Desburocratização, o antigo MARE (Ministério de Administração e Reforma do Estado) na época, e... deixa ver.... o Ministério do Planejamento. Ah, teve também o Ministério da Saúde. Todos os hospitais da rede federal, estadual e municipal passaram pelo programa. 

DF – Deveria ser uma realidade bem diferente da de agora, já que a saúde pública hoje está beirando a falência.

LRB – Com certeza! Mas na época os programas eram bancados quase na totalidade pela FINEP. As entidades entravam apenas com 10% do custo total. Quando tiveram que bancar os 100% acabou o interesse, como é típico na política do país. 

DF – Ainda se lembra dos dirigentes desses ministérios da época?

LRB – Sim. A Claudia Costin, que recentemente esteve à frente da Secretaria de Educação do Rio, na época estava no MARE assessorando o Bresser Pereira, que ocupava a pasta. O Joel Jorge que comandava a área de RH do Ministério da Justiça na época também esteve comigo quando eu implantava qualidade lá, e depois voltei a encontrá-lo já à frente do Detran do DF. O projeto pioneiro para qualidade do serviço no Detran foi um dos meus trabalhos mais gratificantes. Do projeto piloto que criamos lá surgiu o modelo de serviço que hoje se espalhou para todo o país. O Detran da época era a primeira referência em desorganização e corrupção do serviço público, onde atravessadores e despachantes ganhavam muito dinheiro só com propinas. A nova realidade que vemos hoje nos atuais Detrans está diretamente vinculada ao trabalho começado na unidade central de Brasília. 

DF – Deixando de lado o consultor e retornando ao poeta, o senhor mencionou apreciar mais o seu talento como ensaista. Como é mesmo o nome do seu livro de ensaios?

LRB – “Os fantasmas debaixo da cama”. 

DF – Bem sugestivo o título. O senhor mesmo que escolheu? Algum motivo em especial?

LRB – Sim, claro! Como falei, nos ensaios eu pratico uma espécie de “autoterapia” e aprendo muito com o que descubro sobre mim durante o desenvolvimento dos temas. O título tem tudo a ver com isso. Não há como mergulhar no interior da própria alma sem libertar alguns fantasmas que estavam bem escondidos lá no fundo. 

DF – E parece que o senhor acaba por transformá-los em novos grandes amigos, já que curte tanto cutucá-los!

LRB - (risos) Nem sempre! Quase sempre os ensaios promovem uma tal catarse emocional que me geram intenso sofrimento durante um bom tempo. Até hoje ainda não reli o livro depois de publicado, tal o impacto do que me trazem de volta as experiências registradas. Ao escrevê-los estou no auge da emoção e vou colocando tudo pra fora, para depois ler o que escrevi e entender melhor o que se passava comigo naquele momento. 

DF – E consegue?

LRB – Sim. Ainda ontem mesmo conversava com um amigo que também escreve no Recanto das Letras e eu lhe dizia justamente isso: de tanto colocar meus fantasmas pra fora eu aprendi a mergulhar fundo nos meus próprios problemas e conhecer bastante sobre como penso e como ajo. Mas uma coisa é conhecer meus fantasmas, outra bem diferente é aprender a lidar com eles. Acho que me conheço bastante hoje para não me surpreeender com nada do que possa ou não possa colocar em prática, mas nem sempre consigo atingir meu objetivo de manter a situação sob controle. Se você me vir num auditório falando para uma multidão vai me perceber completamente à vontade, mas como pessoa vou me sentir péssimo, pois sou tremendamente tímido e não quero ter as luzes voltadas pra mim. 

DF – Curioso isso!

LRB – É diferente do que acontece entre o consultor e o poeta, por exemplo. pois aqui  a obra é que chega na frente, e não o executor.  Quando estou trabalhando minha timidez não me atrapalha. Já dei palestra em auditórios lotados com mais de 5.000 pessoas – como no Centro de Convenções de Salvador – e fico tão à vontade como dando aula para 30 alunos. Sinto necessidade de manter a vida pública – a profissional – bem separada da minha vida privada. Quando preciso enfrentar multidões eu sei lidar muito bem com elas no trabalho, pois ali eu me sinto blindado pela profissão. Ali eu sou o Consultor, onde o microfone é meu instrumento de trabalho, e tudo flui naturalmente. É como o ator no palco, que na pele de seu personagem não vive as dores dele, e não faz diferença se na cena precisa estar vestino ou nu. Mas se me colocam no meio de uma multidão ou sob uma câmera por conta própria, não vou ficar confortável naquele cenário, e travo como se nunca antes tivesse enfrentado holofotes.

DF – Mas o senhor está confortável pra falar disso agora. Talvez porque eu esteja entrevistando o Consultor, e não a pessoa. Seria isso? 

LRB – Exatamente. Mas é um desafio sempre instigante mergulhar no mais profundo que se possa dos nossos labirintos internos e aprender com isso. Ao mesmo tempo que me apavora às vezes o que posso descobrir, me fascina também. É o Luiz aprendendo com o Consultor, o que é fascinante, pois expõe a fronteira entre o nosso lado interno e o externo. Suplantar as barreiras internas é bem mais difícil do que enfrentar os riscos externos, pois que na auto-descoberta o inimigo está dentro da gente! Dominar a nós mesmos nos torna mais vencedores do que as vitórias externas. 

DF – O senhor parece ser fascinado por auto-conhecimento.

LRB – Com certeza! É estimulante descobrir-se e desafiar-se a enfrentar os nossos medos. Costumo dizer que o meu maior medo é me ver dominado pelos meus próprios medos. 

DF – Num conto em que narra seus esquecimentos da juventude me lembro de uma passagem que me impressionou pela coragem: o senhor voltou à escola de seu filho onde tinha armado uma tremenda confusão baseado apenas em fantasia e confessou tudo ao diretor que sofreu o impacto de enormes proporções emocionais.

LRB – É verdade! Esse foi um dos fantasmas que desde cedo me desafiei a dominar: não importa o tamanho do erro que cometa, que eu encaro de frente a situação e me desafio a tentar ao menos me desculpar pelo mal-feito, mesmo quando não seja possível consertá-lo. 

DF – ...Ou que a pessoa não ficasse sabendo se o senhor não contasse!

LRB – Correto. Eu me sinto vencedor sobre mim mesmo quando enfrento a vergonha de expor-me revelando o erro em vez de buscar justificativas depois para o injustificável. No texto que você leu eu não precisaria voltar lá para contar tudo ao diretor, mas precisei fazê-lo para recobrar a paz com minha consciência, apesar de todo o constrangimento que tive que enfrentar. 

DF – Qual era mesmo o título?...

LRB – Do conto? “O destrambelhado” (risos). 

DF – E tinha fantasias nele para emprestar mais emoção ao texto?

LRB – Não! Tudo o que ele mostra é absolutamente real e me causaram enormes transtornos emocionais na época. Aliás, esse episódio do esquecimento do meu filho com apenas 4 anos de idade na casa de uma tia me deixou tão traumatizado que até para escrevê-lo eu suei em bicas só de reviver tudo o que passei. E olha que aquilo aconteceu há quase 3 décadas. 

DF – Uma pessoa que comentou o seu texto exprimiu algo parecido quando disse que o conto era extenso mas intenso, me parece!

LRB – Sim! Ele foi direto na carne! É exatamente o que sinto cada vez que o releio. 

DF – O senhor parece não ter qualquer receio de se expor quando se trata de viver suas experiências.

LRB – Não posso dizer que isso se aplica a todos os demais aspectos de minha vida. Quando cometo erros que podem atingir pessoas, sim! Eu me preocupo muito mais com a sanção que minha própria consciência irá me impor se não o revelar do que com as reações de raiva das pessoas ao saberem da verdade. Algumas pessoas nem me perdoaram depois ao ouvir meu pedido de desculpas de minha própria boca por erros cometidos, e ainda assim não me passa pela cabeça não revelá-los. Mas nas questões de cunho pessoal já sou extremamente reservado. Terminei recentemente um relacionamento simplesmente porque a moça em questão era marcantemente “show-off”, como dizem os ingleses: se expunha sem qualquer preocupação e até revelava situações nossas que me deixavam bem desconfortável. Na minha vida pessoal eu sou cuidadoso ao extremo e trato as questões pessoais com muito zelo. Não há nada que mais me constranja do que me colocar ou ser posicionado sob holofotes, em qualquer circunstância. Ninguém precisa compartilhar das intimidades do outro sem que seja necessário para a conpreensão do fato pelos envolvidos. 

DF – Mas no entanto o senhor é uma pessoa bastante pública. Ao planejar nosso encontro para a entrevista joguei seu nome na internet e o Google retornou com milhares de respostas...

LRB – É verdade. Mas você também deve ter percebido que esse meu lado público tem 99% do foco na minha carreira profissional, uma vez que fiz trabalhos significativos ao longo dos últimos 20 anos. O lado pessoal tem limites muito bem definidos. Aliás, esse amigo que mencionei agora há pouco também elaborou uma entrevista comigo, e pela primeira vez me vi abordando questões de cunho pessoal, apesar do tema da abordagem ter sido muito bem trabalhado na entrevista e mais ainda na minha cabeça. Apenas eu não costumo “misturar as bolas”, como se diz na gíria. Mantenho vida profissional e pessoal bem separadas. 

DF – Refere-se à questão de sempre ter sido naturista, mesmo com a projeção alcançada no aspecto profissional?

LRB – Sim. Nunca senti necessidade de ocultá-lo pois que o meio naturista é um dos mais íntegros e éticos que já freqüentei. Mesmo no IBQN meus diretores não desconheciam que eu o freqüentava, e sempre demonstraram enorme respeito. Haviam as brincadeiras de praxe, é claro, mas sempre respeitosas e de bom tom. Talvez porque o meio de consultoria, que freqüento, integra pessoas de padrão elevado de preparo e formação. Mas o sabiam por reportagens de TV sobre o tema, não por mim. 

DF – É fácil de entender. O senhor é respeitado no meio profissional e o ambiente também ajuda muito. Seu histórico lhe dá respaldo.

LRB – Sem dúvida! Sempre primei por deixar portas que não se fecham quando saio, e sempre que volto as encontro abertas. 

DF – Bacana isso! Parece que o senhor gerencia muito bem os dois lados, o pessoal e principalmente o profissional. E quanto aos seus planos para os próximos livros?

LRB – Nos próximos dias estarei vivenciando uma experiência diferente das outras. O tema do livro: orações! 

DF – Orações? De que tipo?

LRB – Preces espirituais. 

DF – Esse seu lado religioso eu não descobri em nenhuma referência no Google!

LRB – É verdade. Mas não se trata propriamente de um “lado religioso”. Não sou pessoa de falar de religião. Aliás, não tenho uma desde muito jovem. Acho que se prestam muito mais a separar pessoas em “escolhidos” e “desgarrados” do que agregá-las. Por isso aboli religião de minha vida, mas contrariamente, foi quando acordei para minha espiritualidade, que trato como algo muito íntimo, pessoal. Não gosto de religiosidade sendo tratada como artigo de marketing, como o fazem por aí. O livro saiu por conta de umas poucas orações que postei no Recanto, como diálogos íntimos com meu Deus interno, mesmo. Das 11 que postei lá, uma delas apenas atingiu a marca de quase 9.000 leituras em pouquíssimo tempo. É a que entitulei de “Oração para busca de conforto”. Notei então como as pessoas estabelecem uma verdadeira cruzada atrás de textos que lhes possam trazer algum conforto em meio a tantas dificuldades que atravessam. E foi essa oração que me sugeriu reunir as poucas que fiz em livro. Ele é direcionado para essas pessoas que sofrem e buscam por palavras que possam devolver-lhes um pouco da paz que perderam. 

DF – Legal, professor. Nada contra que seja lido por outras como eu, que colocam mais foco na obra que no aspecto religioso da questão, não?

LRB – Absolutamente! Fique à vontade. Mas se você quiser outra entrevista para me consagrar como um novo “mensageiro divino” pode me tirar desse holofote, tá certo? (risos). 

DF – Tá certo, professor, fique tranqüilo. Já sei que elas pertencem àquele seu lado restrito para onde o senhor não gosta de levar os holofotes. Quero agradecer pela entrevista, que o senhor, como sempre, respondeu com total transparência, e me candidatar para uma próxima ocasião, se o senhor permitir.

LRB – Não tenha dúvida, Daniel, vai ser um prazer quantas vezes desejar. Aliás, meu filho é seu xará. Só que eu o chamo de Dany, e você é conhecido como Dan Ferretti, não é isso? 

DF – Isso. Fica mais fácil para memorizar, para quem sabe um dia eu conseguir ocupar o espaço que o senhor já conseguiu.

LRB – Se der prioridade em “ralar” bastante em vez dos holofotes que possa trazer, com certeza vai ocupar todos. Sucesso! Imagino que possa postar nossa entrevista no Recanto das Letras, para o qual escrevo há alguns anos, tão logo transcreva a gravação que fizemos para o papel, tudo bem? 

DF – Com certeza, professor, fique à vontade. Muitíssimo obrigado e até uma próxima oportunidade.

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Entrevista concedida ao jornalista Luiz Fernando G.Coutinho, para publicação na revista semanal "Minha Revista", dedicada a publico jovem:  


20 dicas para conservar seu emprego 

MINHA REVISTA – Quais seriam as principais dicas que poderiam ampliar a capacidade de um profissional para conservar seu emprego e se fazer respeitar na função desempenhada e no cargo que ocupa?

 

Luiz Roberto Bodstein – Seguem aí pelo menos 20 dicas que considero fundamentais: 

1. Trate de conhecer muito bem tecnicamente o trabalho que executa. Não se contente em entender o "mínimo necessário".  Pesquise, conheça tudo o que estiver ao seu alcance, busque saber mais do que lhe é disponibilizado, tentando desenvolver-se por esforço pessoal.

2.  Verifique se o seu perfil está adequado à função que executa, se você se identifica com as tarefas que lhe são impostas pelo cargo. Se isto não estiver acontecendo, é preciso coragem para expô-lo, para não correr o risco de perder o respeito das pessoas e ser afastado por incompetência.

3. A princípio procure mostrar-se sempre disponível para o trabalho, o que não significa submeter-se ao comodismo alheio.

4. Não se conforme com uma maneira única de resolver as coisas: ouse experimentar formas novas.

5. Prontifique-se a enfrentar desafios: não coloque obstáculos antes de analisar diferentes caminhos e se dispor a correr riscos, desde que calculados e com margem provável de acerto.

6. Busque atualização constante em relação a novas tecnologias e métodos de trabalho.

7. Trabalhe com metas pré-definidas.  Se não lhe couber estabelecê-las, busque conhecer as metas de sua área e perseguir seu cumprimento.

8. Separe pessoas de problemas:  quando algo a incomodar, atenha-se ao que precisa ser corrigido, ao invés de buscar quem tem a culpa.  Isso se aplica às reuniões:  enfocar os fatos, em vez de tentar atingir quem os provocou.

9. Seja sempre objetivo nas colocações:  vá direto ao assunto, sem rodeios nem "panos quentes", mas sempre com respeito.

10. Em posição de comando de equipes, lidere com descontração e avalie com critérios claros, encorajando os outros a proceder da mesma forma.

11. Reserve sempre um tempo para pensar e planejar, antes de agir intempestivamente.  Quinze minutos antes do expediente, e quinze após encerrá-lo, para avaliar o seu dia, está de bom tamanho.

12. Evite tensões emocionais ou físicas, indispondo-se com companheiros de trabalho ou com superiores.  Sempre que algo não parecer claro, peça para conversar e expor com serenidade o problema ou a dúvida, para não gerar interpretações errôneas e nem acumular mágoas.

13. No trato diário com pessoas, adotar sempre uma posição clara e transparente, sem disfarces ou vias indiretas.

14. Utilizar o "sim" e o "não" como decorrência de análise imparcial, não tendenciosa, explicando sempre os motivos que os sustentam.

15. Estar sempre atento para não invadir o espaço vital das pessoas, nem abandonar o seu próprio por medo, negligência ou insegurança.

16. Adotar uma postura única no lidar tanto com superiores ou com seus pares:  jamais ser na ausência deles o que não consegue ser em sua presença.  A recíproca também é verdadeira: não queira ser na presença deles o que não é, na realidade.

17. Nunca busque seu referencial no que os outros ganham para avaliar o seu próprio salário.  Compare-o com o que você oferece em termos de resultados.  Você tem que ganhar não pelo que você traz no curriculum, e nem pelo que o seu colega de função ganha, mas pela sua efetiva contribuição dentro de sua função.  Sempre que você se sair bem em tudo o que assumir, seus chefes poderão até não ter como lhe dar o salário que você lhes pede, mas jamais acharão que você não o merece.

18.  Procure aprimorar sua comunicação.  Transmita as suas mensagens com clareza, sem ser conciso demais e nem prolixo, estendendo-se mais do que o necessário.  Depois de transmiti-la, certifique-se de que foi devidamente entendido.  É claro que um superior não vai gostar de ouvir você falar:  "Por favor, repita o que eu disse!", mas vai entender se você disser: "Não sei se consegui me expressar direito: ficou claro para o senhor ou gostaria que eu explicasse melhor?"

19.  Sempre que alguma coisa que não lhe cabe fazer lhe for "empurrada", faça o outro entender que tem boa vontade em "ajudá-lo", mas deixando nas entrelinhas que aquilo foge à sua rotina, tipo assim: "Que sorte que você me pegou num momento bom! Hoje vai dar para fazer isso pra você!

20.  Acostume-se a administrar seu tempo, estabelecendo momentos para planejar, para executar e avaliar suas atividades.  Deixe as pessoas perceberem que você estabelece horários e os respeita, tanto os seus quanto os delas, e logo elas começarão a não saltar de pára-quedas na sua agenda.

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Entrevista concedida a grupo de formandos de Administração da Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC – após conferência proferida na Instituição aos alunos do  último ano.

O texto é a transcrição de uma entrevista com Luiz Roberto Bodstein, consultor e escritor, realizada por estudantes de Administração da UNOESC. A entrevista explora a trajetória diversificada de Bodstein, destacando sua aversão a seguir tendências e sua busca por projetos autênticos e de qualidade, tanto na consultoria quanto na escrita. Ele enfatiza a importância da identificação pessoal com o trabalho, rejeitando projetos que não o convencem, mesmo com boa remuneração. A entrevista também aborda sua experiência em uma missão de estudos na Universidade da Pensilvânia, seu extenso currículo e a relativa irrelevância do acúmulo de cursos em relação à adaptação constante às mudanças do mercado. Finalmente, a conversa toca em sua prolífica produção literária, abrangendo gêneros diversos, e a importância de viagens para seu crescimento pessoal. O conteúdo da entrevista apresenta a filosofia de trabalho e a vida de Bodstein como exemplo inspirador para os estudantes próximos a iniciar sua carreira.  Nela Bodstein discute sua trajetória profissional marcada pela busca por explorar novas possibilidades e trabalhar apenas em projetos nos quais acredita. Ele descreve sua experiência com diferentes estilos de escrita, incluindo haikais e prosa poética, e fala de sua experiência entre a literatura e a consultoria, enfatizando a importância da  qualidade se sobrepondo à quantidade. Na conversa também narra sua participação em uma missão de estudos na Universidade da Pensilvânia e seu extenso trabalho com instituições governamentais e de ensino, destacando a relevância das experiências internacionais e a busca por aprendizado contínuo. Finalmente, ele reflete sobre a obsolescência rápida do conhecimento técnico e a importância de permanente atualização para não se sucumbir ao obsoletismo.

  

Formandos da Faculdade de Administração – Dr. Luiz Roberto, pudemos conferir em sua página na internet que em sua carreira como consultor o senhor esteve envolvido  numa diversidade incomum de trabalhos que vão bem além daqueles que se costuma encontrar na área de administração. Foi uma questão de oportunidade ou proposital? 

Luiz Roberto Bodstein – Eu não diria ter sido proposital, já que eu não fiz uma escolha, digamos assim, por esse modelo de trajetória. Também não posso dizer que foi por acaso: acho que tem muito mais a ver com uma necessidade que sempre tive de explorar possibilidades, de estar descobrindo outras coisas. Conhecer mais sobre tudo o que me cai nas mãos sempre se apresentou como uma compulsão na minha vida. Algo bem maior do que eu consigo controlar dentre todas as minhas manias (risos). 

FFA – Isso se estende aos seus livros não técnicos, pelo que a gente percebeu. 

LRB – Com certeza! 

FFA – E isso se mostra mais forte no escritor ou no consultor? 

LRB – Nos dois, se bem que acontecendo de maneira diferente em cada um. No que toca à escrita, eu gosto de explorar estilos novos de me expressar. E sempre que descubro algum eu faço experimentos com ele, uma espécie de teste para descobrir se consigo expressar minhas idéias dentro das regras que o estilo impõe, sem me sentir tolhido por elas. Em alguns eu fico confortável e dou continuidade ao uso. Em outros posso não me identificar, e não insisto neles. 

FFA – Pode dar algum exemplo? 

LRB – Claro! Eu tive algumas experiências com “Haikais”, por exemplo. Acho interessantíssima a forma concisa e direta de contar toda uma história, que os japoneses conseguem fazer de forma admirável! Pra mim, no entanto, não passou de uma experiência. Não me senti identificado com o estilo para me fixar nele mais do que durante um curto espaço de tempo. Já a prosa poética me atrai de uma forma muito mais forte. 

FFA – Tem a ver com ficar preso às 17 sílabas que o senhor precisa obedecer nos haikais? 

LRB É. Acredito que tenha a ver com isso. Mas não necessariamente pela dificuldade de respeitar a silabação, nem à concisão obrigatória. Muito mais talvez com a sensação de ter um trilho rígido demais para eu explorar toda a poesia que parece pedir mais lá por dentro... Algo assim (risos). E não tem nada ver com o tamanho: tem mais a ver com identificação do que com dificuldade da forma. Tanto que fiz muitos “poemínimos” que se fecham em 4 ou 5 palavras inteligentemente utilizadas, e adorei fazê-los. Tem a ver com você, não com a forma. Eu, por exemplo, me considero rebelde por natureza. Quando sinto o estilo me prendendo mais aos trilhos do que me dando o espaço que preciso para me sentir inteiro, tento me livrar da sela nas costas, acho que é mais ou menos por aí. 

FFA E pelo lado profissional também acontece desse jeito? 

LRB No que toca à identificação e o de precisar me colocar inteiro no que faço, nisso é igual. A diferença maior fica por conta da mensagem a ser passada: eu preciso acreditar nela, antes de levá-la ao público que pretendo atingir. Se me oferecem um conteúdo pouco consistente, que não me convence de que possa atingir o objetivo que é vendido para o cliente, ou que não permite ser explorado em todos os seus diferentes aspectos, não há remuneração que me leve a trabalhar com ele. Hoje posso dizer que só me envolvo com projetos em que acredito no resultado que se propõe a oferecer! Já na escrita, seja em linguagem poética ou em prosa, não existe essa exigência de precisão, nem de resultado junto ao público envolvido. O compromisso é com a auto-satisfação, pura e simplesmente. Não escrevo com o intuito de vender livros nem de me projetar pela escrita. 

FFA Isso é um privilégio que poucos podem se permitir, não é assim? 

LRB Concordo. Conheço muitos profissionais que se preocupam em vender aquilo que virou febre no momento. Se está “bombando”, o caminho é esse. Eu tenho uma resistência enorme pra acompanhar esse tipo de lógica. 

FFA Mas isso não restringe seu espaço em termos de concorrência? 

LRB Em termos de marketing eu acredito que restrinja, sim. Mas é aquele negócio: entre ter quantidade ou oferecer qualidade, eu fico com a segunda. Eu já cumpri minha cota de me envolver com coisas onde a sobrevivência exigia que eu engolisse alguns sapos. A esta altura da minha vida posso me dar ao luxo de me ocupar só com o que realmente acredito, e aí a qualidade fala mais alto. Isso também vale para quem paga pra me ouvir, Se ele opta por resultado em vez de “oba-oba”, acaba saindo com uma sensação de que fez uma boa escolha, e isso é o que me importa. 

FFA E o que diria para a outra parte – talvez a maioria – que fez a escolha pelo que está “bombando”? 

LRB Que consigam ter o que buscam. Cada um tem direito de escolher entre o que enfeita e o que faz diferença, mesmo que não esteja na moda. A mim me dá mais prazer falar para quem eu possa produzir alguma diferença no que busca para si mesmo. 

FFA O senhor tem uma longa lista de trabalhos aplicados a instituições de ensino na docência de MBA’s, pós-graduações, além de conferências sobre os mais diversos temas, não é assim? 

LRB Sim. E não apenas voltado para universidades de ensino formal, como a de vocês. Fiz muitas apresentações em instituições educacionais de toda natureza como o INES (Instituto Nacional e Escola de Surdos), centros de formação tecnológica, instituições de capacitação técnica do sistema “S” e até para estudantes com necessidades especiais do ensino médio. É um público bem diferente do corporativo. 

FFA Diferente em que sentido? 

LRB De que o trabalho se mostra bem mais gratificante! A diferença maior é na motivação. A maioria desse público é de jovens buscando espaço no mercado, e se mostram ávidos por ocupar esse espaço. Então mergulham fundo em tudo que lhes chega. A gente sai com a certeza de que contribuiu para que, a partir de nós, mais uma porta se abriu para cada um deles! Isso dá muito combustível para trabalhos altamente produtivos. 

FFA Seu público sempre foi bastante diversificado, não? 

LRB Em todos os aspectos possíveis: institucional, hierárquico, cultural, geográfico, intelectivo, etc. 

FFA Poderia dar alguns exemplos desses públicos? 

LRB Institucional: empresas do serviço público, privado, e do terceiro setor; hierárquico: da alta administração ao chão de fábrica, de operários a ministros de estado e altos dirigentes de autarquias governamentais; geográfico e cultural: direcionados para todas as regiões do país tanto em corporações das grandes capitais como em microempresas de cidades ribeirinhas da Amazônia,  às quais só se tem acesso por “teco-teco” ou navegação fluvial; intelectivo: fazendo uso de linguagens que cobrissem toda a diversidade das propostas didáticas, desde adolescentes com atraso escolar, passando por deficientes em diferentes funcionalidades, até especialistas de alta performance.  Numa área de atuação tão abrangente como a da Qualidade, imaginem que ao longo de anos percorrendo inúmeras vezes todos os estados da União não há como imaginar algum tipo de público que fique de fora de um tipo de trabalho tão abrangente como esse a que me dediquei.   

FFA Dá pra citar algumas dessas instituições governamentais e seus dirigentes, que teriam passado pelo senhor ao longo desses trabalhos? 

LRB Minha nossa! Se considerado que foram centenas de entidades das três esferas de governo, imaginem a dificuldade para atender essa pergunta!... Para citar apenas os mais representativos, no tempo do MARE (Ministério de Administração e Reforma do Estado) estive um bom tempo em Brasília em contato com a Cláudia Costim – que na época assessorava o Bresser Pereira – para implantação do programa de qualidade no Ministério. Teve também o Joel Jorge que conheci na Diretoria do Ministério da Justiça e que depois me chamou para um novo trabalho pelo IBQN quando já estava à frente do Detran, também em Brasília. Governos municipais foram muitos, com destaque para o do Dante de Oliveira, já falecido, quando esteve à frente da prefeitura de Cuiabá. Ele deixou o governo municipal para sair governador de Mato-Grosso, deixando o vice – Cel. Meirelles, em seu lugar. Na Bahia um trabalho que marcou foi o contratado pela prefeita Lídice da Mata (PT Salvador), para ser aplicado à todo os integrantes de sua assessoria. Pelo Ministério do Planejamento percorri o país aplicando “workshops” de desburocratização. Peço desculpas, mas vocês hão de convir que ao longo de 17 anos apenas nesse tipo de trabalho é uma tarefa impossível nomear todos os que se mostraram significativos. 

FFA – Tudo bem, Dr. Luiz. Está desculpado! (risos)... Mas tem um ponto do seu curriculum que acreditamos não ser difícil para o senhor dar mais detalhes: a missão de estudos que cumpriu na Universidade da Pensilvânia. Estou certo? 

LRB – Ah, sim!  Com toda certeza! Por onde começamos? 

FFA – Comece explicando uma coisa que interessa a todo o grupo aqui: o que vem a ser uma “missão oficial de estudos” no modelo que o senhor integrou? O que o senhor acredita que pode acrescentar para qualquer um de nós que, num futuro próximo, possa estar seguindo a trajetória que o senhor cumpriu em consultoria organizacional? 

LRB – Bem, conforme sugere Jack, o estripador, vamos por partes... (risos). Uma “missão oficial de estudos” é um evento especialmente criado para proporcionar troca de experiências entre especialistas de alta performance nas suas respectivas áreas de atuação. No meu caso específico, elas aconteciam como exigência de atualização e nivelamento do conhecimento requerido para os profissionais que estivessem à frente de um processo de disseminação de programas de excelência corporativa, os chamados “Programas de Qualidade”, embasados por um modelo conhecido como GQT – Gestão pela Qualidade Total. 

FFA – A quem compete a iniciativa de um evento desse porte? 

LRB – Para essa resposta é preciso que vocês entendam a estrutura desses sistemas na época da Missão: a idéia na época foi do Governo Collor, que decidiu estabelecer no país uma mentalidade voltada para a qualidade do serviço público, tido como um dos mais atrasados pelos parâmetros que havia para as práticas já amplamente internalizadas pelas grandes corporações no exterior. 

FFA – Com base na credibilidade que o senhor mencionou como pré-requisito para seus trabalhos, o senhor acreditava nas boas intenções do governo, na época, para efetivamente investir na melhoria dos serviços que prestava? 

LRB – Pra ser franco, nunca entrei no mérito dessa questão. Pra mim pouca diferença fazia se o Collor estivesse realmente pensando no crescimento do país, na efetiva melhoria na qualidade dos serviços prestados à população, ou se tudo não passava de um grande projeto de marketing sustentado pela sua megalomania, de forma a criar a imagem de “grande estadista” para o resto do mundo. Na minha cabeça havia uma certeza de que o ganho não ficaria refém de qualquer dessas motivações: fossem elas interesseiras ou não, estávamos em um processo de permanente contato com referenciais do que de melhor se estava fazendo no planeta, e isso, por si só, já era um enorme ganho para todos. Se até então – tão hermeticamente fechados em nosso mundinho tupiniquim – não se tinha acesso a qualquer parâmetro de comparação entre o que possuíamos e o que ainda se poderia obter em termos de melhorias, esse processo agora exigia uma importação de referências segundo os conceitos mais avançados em caráter global. Ainda que não sendo o bastante para mudar realidades por si mesmo, apresentava-se como um incontestável gerador de massa critica, fazendo com que tivéssemos a dimensão do quanto estávamos atrasados em relação a tudo o que poderíamos estar obtendo diante do já possível de ser atingido. 

FFA – E onde entrava a missão de estudos nesse contexto? 

LRB – Justamente para nivelar a compreensão do “modelo universal” a ser seguido para corrigir as distorções e diferenças entre as diferentes culturas, de acordo com o método  preconizado pelo padrão de qualidade que deveria – hipoteticamente – ser acessível a todos os povos desse novo mercado globalizado, que buscava encontrar uma linguagem comum em termos de desenvolvimento. O governo decidiu então nomear algumas das mais respeitadas instituições especializadas em gestão de alta performance para funcionarem como “nucleadoras da qualidade”, ou seja: como multiplicadoras da metodologia que se propunha a disseminar para gerar o salto de qualidade no serviço público. 

FFA Discurso esse afinado com a promessa de campanha do Collor de “acertar um tiro na testa do dragão da inflação” por conta da ineficácia operacional do país. Teoricamente uma sacada convincente com enorme retorno político! 

LRB – Sem a menor sombra de dúvida! E o suficiente para dar projeção nacional a um político de Maceió, vindo de um partido que ninguém conhecia, a tal ponto de vencer a primeira eleição por voto direto após 21 anos de ditadura militar. Como mencionei, foram três as empresas habilitadas como multiplicadoras da qualidade para esse trabalho de amplitude nacional: a Fundação Vanzolini, em São Paulo, a Fundação Christiano Otoni, em Belo Horizonte, e o Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) no Rio, cuja equipe de consultores vim a integrar. Essas três nucleadoras tinham que cumprir um calendário de nivelamento metodológico sistemático com instituições mundiais que detivessem o “know-how” da Qualidade, de acordo com os princípios de operacionalidade estabelecidos na época. E foi assim que fui parar numa dessas missões de estudo. A Universidade da Pensilvânia (Pennstate), onde ocorreu a missão da qual participei, era tida como a meca mundial da qualidade, concentrando no “The Center for Total Quality Schools” os maiores especialistas do assunto e a grade curricular das disciplinas que deveriam ser compartilhadas por todos os países membros. 

FFA – ... A que aparece descrita lá em sua página. 

LRB – Correto! 

FFA – Na sua opinião as missões de estudo cumpriam seu objetivo? 

LRB – O de nivelar a metodologia da qualidade? Acredito que sim, embora isso não tenha se aplicado ao meu caso, especificamente. Não por falha da missão, com toda certeza, que foi impecável da primeira à última disciplina ministrada, mas por uma competência técnica mais impecável ainda por parte do IBQN, para o qual eu trabalhava! De tudo o que vi, ao longo do período em que permaneci em Pennstate, não me deparei com absolutamente nada que desconhecesse até antes da missão, com exceção de uma talvez – o Ensino à Distância – por conta da tecnologia que, para a época, o Brasil ainda não dava acesso. Mas nada além dos recursos tecnológicos utilizados na disciplina, o que era de se esperar. No que toca ao conteúdo, mesmo, não encontrei qualquer novidade, o que se apresentou como um incontestável indicador de que eu integrava uma das mais avançadas estruturas organizacionais do assunto, sem a menor sombra de dúvida. Talvez para outros integrantes da missão, oriundos de outras instituições participantes, essa constatação não se mostrasse verdadeira, e aí a missão estaria cumprindo esse papel nivelador. 

FFA – Não sei os meus colegas aqui presentes, mas eu pessoalmente contei mais de 120 cursos em seu curriculum. Qual o peso que eles têm para o senhor hoje? 

LRB – Como background para o que faço agora, nenhum! 

FFA – Como assim? Está dizendo que durante todo aquele tempo era um colecionador de diplomas? 

LRB – Não! Estou dizendo que eu não teria me mantido no mercado se dependesse deles. E é muito simples de entender a razão: as coisas mudam numa velocidade intensa atualmente. As competências que adquiri quando passei por aqueles treinamentos servem hoje como base para algumas escolhas, ou referências sobre como tais conceitos evoluíram ao longo dos anos. Qualquer coisa que tenha vivenciado há mais de dois anos, no entanto, não possuem qualquer aplicabilidade dentro do que faço agora. Antes isso acontecia num intervalo maior. Daqui a pouco, passados um ou dois anos do que estamos fazendo agora já serão suficientes para o mesmo estágio de obsoletismo.  

FFA – Isso não é assustador se pensarmos em todo o investimento feito para tudo se perder em tão pouco tempo? 

LRB – Depende do que você entende como “perda”. Considerando apenas os conteúdos, eles se perdem, sim. Mas se o foco for estendido para o sistêmico, o resultado final é um consistente preparo para o novo e uma percepção igualmente intensa de sua atual realidade, o que se mostra muito mais útil para o seu agora do que o simples acúmulo de conhecimento. Já se sabe que mais importante não é o conhecimento em si, mas o que se faz com ele. 

FFA – Falando em conhecimento acumulado, o senhor é autor de quantos livros até o momento? 

LRB – Se você pergunta dos lançados, vinte até aqui. Mas tem três em andamento que ainda não sobrou tempo pra terminar. 

FFA – A maior parte sobre assuntos dos seus trabalhos? 

LRB – Não! Apenas seis são técnicos. Um dos três que estou trabalhando será o sétimo. Os demais são dos mais variados estilos: sonetos, contos, ensaios, pensamentos, e outros. 

FFA – Já fez cordel? 

LRB – Poucos, mas estão entre os estilos que mais gosto. Aquela linguagem interiorana, tão rudimentar e, ao mesmo tempo, de uma sabedoria profunda e ingênua que brota do cotidiano me fascina! 

FFA – Contei quase 40 cidades nos diferentes países que o senhor visitou. Algum motivo especial para as viagens, além do lado profissional? 

LRB – Você sabe de coisas que nem eu mesmo sabia... (risos). Respondendo sua pergunta: o lado profissional, nas viagens, é o menos importante. Capacitação técnica a gente pode fazer em qualquer lugar. Temos instituições no Brasil que cuidam disso brilhantemente, sem dever nada a muitos países de primeiro mundo. Veja só: não estou falando da educação de base, que é uma lástima, mas da especializada, ao que a maioria não tem acesso. Mas quanto às experiências lá fora, o que proporciona o maior aprendizado mesmo é a troca de culturas, a vivência de realidades tão diferentes da nossa. Isso é o que acredito acelerar um crescimento que nenhuma escola consegue proporcionar. Tenho pra mim que cada ano passado num país estranho corresponde no mínimo a dez que se passa no próprio país, em termos de aprendizado. 

FFA – Ouvi dizer que o bom entrevistador é aquele que pesquisa bem o entrevistado antes de iniciar a entrevista. Acho que todo mundo aqui se preocupou com esse lado (risos). 

LRB – Percebe-se! (novas risadas) 

FFA – Professor, perguntamos alguma coisa que não gostaria de ter respondido ou deixamos de perguntar alguma coisa que gostaria de dizer? 

LRB – Nem uma coisa nem outra. Vocês foram bem práticos na escolha das questões. Acredito que em uma semana estarei refeito para outra sessão de perguntas como essa (risos). Obrigado a todos. 

FFA – Nós é que agradecemos. Obrigado pelo tempo que nos dedicou, e até a próxima!

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Entrevista concedida à Fábio Brandão, escritor, poeta e estudante de jornalismo do portal Recanto das Letras, para publicação naquele importante canal de divulgação literária que reúne algumas milhares de obras e outros tantos milhares de escritores de língua portuguesa ao redor do mundo.


Fábio Brandão: Quem é Luiz Roberto Bodstein pessoa jurídica?

Luiz Roberto Bodstein - É uma consultoria em gestão organizacional. O nome da empresa é Ad Modum Soluções Corporativas. O site cujo endereço lhe passei é apenas o meu curriculum pessoal online. Os serviços que presto ao meu público enquanto pessoa jurídica estão todos lá.

FB: Como surgiu a oportunidade de trabalho nessa área de consultoria?

LRB - Foi em 1987. Eu era gerente da escola técnica do Estaleiro Verolme, em Angra dos Reis, e diante do risco de ver a Verolme fechar por conta da quebra geral da construção naval na época, eu e mais dois colegas fundamos a Trimens Consultores e iniciamos atividades em Volta Redonda. Fiz muitos trabalhos que acabaram me trazendo de volta ao Rio, onde não mais interrompi a atividade de consultoria empresarial até os dias atuais.

FB: Em sua opinião por que tem faltado tanta mão de obra qualificada no mercado de trabalho?

LRB - Por uma série de fatores: falta de investimento público em educação de qualidade, baixos salários e rápida aceleração dos processos produtivos decorrente das novas exigências do mercado internacional, entre outros, que não deram tempo para que as pessoas se preparassem por conta do descaso de décadas pelo poder público. Quem conseguiu por seus próprios meios foi buscar mercados mais compensadores fora do país, e o interno ficou com os menos preparados, que não tinham esta opção.

FB: Qual a solução para diminuir esta falta e reduzir o nível de desemprego?

LRB - A curto prazo o investimento maciço em qualificação que atenda às demandas já carentes de mão de obra, seguido de forte estímulo à formação técnica. A médio e longo prazos, uma tomada de consciência para a educação, de forma a promover especialização de forma contínua. Com tais medidas o nível de desemprego cairá automaticamente, pois que não acontece por falta de ofertas de trabalho, mas por não haver pessoal qualificado o bastante para preencher as muitas vagas em aberto.

FB: Em sua opinião o que têm feito os últimos governos para melhorar este quadro?

LRB - Lula deixou o governo com um saldo de empregos 150% maior que os oito anos do governo FHC. Em contrapartida, o investimento que fez para qualificar nossa mão de obra foi 73,3% a menos do que o da gestão de Fernando Henrique, que já tinha sido muito fraco. O governo FHC investiu R$ 300 milhões por ano, em média, entre 1995 e 2002 com programas de qualificação, enquanto que Lula nos seus oito anos de gestão registrou média de apenas R$ 80 milhões anuais. Somente  no último ano de governo, visando garantir a vaga de Dilma no planalto, foi que investiu R$ 180 milhões, mas ambos fizeram muito menos do que o mínimo para reverter o quadro de desqualificação, que esteve relegado ao abandono por décadas, como citei acima.

FB: Quais as dicas para uma pessoa que está fora do mercado de trabalho e tem encontrado dificuldades para se reintegrar?

LRB - Preparo, preparo e preparo! Não acredito em receita de bolo. Tenho um livro todo escrito sobre o tema ("Um mercado de pernas pro ar", pela Editora Singular, uma divisão da Ediouro Gráfica:www.lojasingular.com.br), mas se quiser um resumo, no meu site (www.luizrobertobodstein.com.br) tem duas entrevistas minhas sobre o tema concedidas a revistas do Rio sob os títulos: "Preparando-se para uma entrevista de recrutamento e seleção" e "20 dicas para conservar seu emprego". Por alí qualquer interessado pode encontrar um direcionamento.

FB: Quais os procedimentos adequados para se obter um bom êxito em uma entrevista para emprego?

LRB - Em um dos artigos publicados numa das duas revistas (veja o título acima), respondo a dez perguntas feitas pela jornalista, onde descrevo em detalhes todos os cuidados a serem adotados. É demasiado longa para ser reproduzida aqui, mas a entrevista não está protegida, e pode ser copiada do próprio site.

FB: Defina as principais características de um líder.

LRB - Como características do perfil de liderança, eu resumiria tudo em três que considero fundamentais: habilidades pessoais, conhecimento técnico e muita vontade de acertar.

E quanto a características de gerenciamento, se aplicadas ao gerenciamento dos processos nomearia como as principais:

- Metas pré-definidas

- Objetividade

- Foco em fatos e dados

- Avaliação à luz de critérios claros

 

Se aplicadas ao gerenciamento de pessoas, considero as mais importantes:

- Encorajamento

- Uso adequado de sanções e estímulo

- Espaço para planejamento

- Preservação de um clima saudável de relacionamentos 

- Equilíbrio e harmonia 


FB: Cite alguns dos trabalhos literários mais importantes que o senhor tem publicado na mídia.

LRB - Entre os de temas de consultoria eu escolheria "E agora, o que é que eu faço?", "Um mercado de pernas pro ar" e "Gerenciando processos e pessoas - Arte e Técnica"(este último sendo lançado ao público nos próximos dias pela Ediouro).

FB: Dê um testemunho a respeito do que tem sido o resultado de suas consultorias nas empresas e na vida dessas pessoas.

LRB - Resposta difícil esta, se levados em conta os 25 anos de minha carreira como consultor. Resumo então com o que aparece na contra-capa de um dos meus livros: meu trabalho retrata o contexto atual de mercado conturbado por mudanças vertiginosas que, na maioria das vezes, atordoa empresas e profissionais que não sabem como reagir ao desafio de se enquadrarem a inovações que costumam entrar rapidamente em obsoletismo para ceder lugar a outras, sempre mais complexas e igualmente efêmeras. Diante disso busco abordar os diferentes aspectos da atividade de consultoria organizacional que se prestem a oferecer orientações para todos os que com ela se vêm envolvidos em algum momento de suas vidas, independente da área de atuação. Os resultados quase sempre dependem muito mais dos empresários do que de mim: alguns se limitam a seguir as orientações deixadas, outros esquecem delas algum tempo depois que deixo a empresa, e um terceiro tipo bem especial consegue multiplicar em muito o que implantei, como resultado de seu empenho, criatividade e competência. Tudo é uma questão de objetivos traçados para buscar o que se propõem.

FB: Quem é Luiz Roberto Bodstein pessoa física? 

LRB - Se não fosse acusado de plágio escolheria para me definir exatamente como o fez um cara chamado Fábio Brandão, no seu perfil do Recanto. Identifiquei-me com o que li, pois no fundo toda pessoa de consciência, quando deixa de ser circunstancial, se parece com aquela descrição. Diria que meus dois lados pessoais mais fortes são, ao mesmo tempo, antagônicos e complementares: o do poeta e o do pensador.

FB: De onde vem o interesse pela poesia e pela literatura de uma forma geral?

LRB - Taí uma resposta difícil pois que não saberia estabelecer o momento em que aconteceu. Lembro-me insaciável por leitura desde a mais tenra infância, e aos dez anos já lia de Exupéry a Oscar Wilde, de Sartre a Tolstói. A sede de me conhecer, e ao meu contexto, me conduziram para essa necessidade de buscar nos livros respostas para todos os meus questionamentos, que sempre foram - e continuam sendo - muitos, e assim será até meu último momento.

FB: Dos escritores consagrados, quais são os seus preferidos e quais o senhor considera os mais promissores?

LRB - Tenho mais de 3 mil títulos em minha biblioteca dos quais pelo menos 100 a 200 eu leio e releio continuamente. Quaisquer destes poderia compor a lista. De repente os quatro que mencionei acima não aconteceu por acaso. Ainda hoje eu relia "Terra dos Homens", um dos meus favoritos do Exupéry.

FB: Como conheceu o Recanto das Letras?

LRB - Juro que não me lembro. Possivelmente por alguma indicação de leitura que me levou até o site, e vi nele um espaço democrático para colocar minhas idéias. Até muito mais como registro próprio do que para divulgá-las, que não é tanto o meu foco. O Recanto funciona para mim como um "arquivo de memórias" e uma fonte de auto-conhecimento.

FB: Qual o texto de sua autoria que mais gostou de ter escrito e que lhe causa um impacto emocional maior?

LRB - Não sei exatamente, já que não costumo escrever com esse enfoque de "criar uma obra" da forma que um artista o faz para ser exibida numa galeria. Meus textos profissionais eu busco divulgar, sim, pois que minha missão maior é levar ao meu público o resultado de minha experiência e as técnicas que podem facilitar suas vidas. Mas quanto aos meus escritos pessoais trato-os como uma auto-terapia, como instrumentos de auto-conhecimento: descubro que passo a me conhecer melhor quando leio depois o que escrevi, como se os meus dedos tivessem vida própria e não se submetessem a um comando definido pelo cérebro. Na maior parte das vezes me percebo entendendo o que escrevi depois que o leio no papel. Não se trata de "releitura": tenho a sensação de que estou aprendendo com algo que outra pessoa escreveu, como se saisse direto do coração para a ponta dos dedos, sem passar pelo cérebro. Um ensaio meu lá, de nome "O tempo no topo da montanha", descreve em detalhes e em tempo real como isso acontece. Retrata uma espécie de transe em que entro sob pura emoção, onde os dedos parecem adquirir vida própria e falar de coisas que nunca pensei antes. Talvez seja um dos que mais gostei justamente por ter aprendido com ele sobre esse processo que até então não sabia, em nível consciente, como funcionava.

FB: Dos vários lugares do mundo ao qual o senhor já foi qual foi a cultura e os costumes que mais lhe chamaram a atenção?

LRB - Acho que nenhum em especial, mas o aprendizado proporcionado por todo o conjunto, pois que o que mais me encanta é a visão sistêmica que a diversidade proporciona, que permite a comparação entre tantos referenciais e se prestam a oferecer dados sobre o universo humano como um todo. Prá você ter uma idéia, quando ia ao Maracanã ficava muito mais ligado no fenômeno social que estava acontecendo na arquibancada, - pelas pessoas envolvidas nas suas paixões pelos seus times - do que pelo que estava efetivamente rolando no gramado. O conjunto, a visão do todo, é o que me encanta, não o específico desvinculado do contexto onde se insere. Considero-me um cidadão do mundo. Meu país é o planeta, minha família é a humanidade. Não privilegio laços pessoais em detrimento de minha ligação com o universal. Se viver para assistir ao contato com seres de outros mundos, meu conceito de país e de ser parte desse todo naturalmente se ampliará. 

FB: Soube através de um artigo aqui no “Recanto das Letras” que o senhor é adepto da prática do naturismo, como surgiu isto em sua vida e como lhe foi apresentado? 

LRB - O artigo que você leu pode lhe dar essa resposta. O naturismo não surgiu na minha vida, eu é que me vi inserido nele desde que me entendo por gente. A nudez em minha vida não nasceu associada a sexo, mas ao sentido de liberdade que sempre norteou minha trajetória no seu sentido interno, não no externo, que este é utilizado meramente para desafiar o "status quo". O naturismo faz-nos retroceder ao Eden, quando as pessoas não precisavam de um limite físico artificial, como o das roupas, para se respeitarem. É com certeza o ambiente mais sadio, menos sensualizado e mais legítimado pela real vivência das relações humanas que já conheci em todo o meu contexto de vida. Depois que me separei não voltei a frequentá-lo porque homens desacompanhados precisam estar provando que são realmente naturistas, e não estão lá com outras intenções que fujam ao código de ética do movimento, que se norteia pelo desenvolvimento do respeito mútuo associado a valores, antes das convenções sociais estabelecidas. Dai que prefiro os espaços exclusivos. Ambientes públicos, como praias ditas "naturistas", reúnem todo tipo de gente, e a maioria não tem qualquer entendimento do que seja o naturismo. São meros curiosos praticando nudismo. Naturismo é outra coisa.

FB: Alguns leigos talvez ainda associem esta prática ao erotismo, por isto gostaria que o senhor explicasse qual é a filosofia do naturismo.

LRB - Acho que o exposto acima já explica o que quer saber. Não existe nada de erótico numa comunidade naturista. Aliás, é exatamente o que não se encontra lá. Tanto é que deixei de frequentá-lo após separar-me de minha mulher, de quem sempre me fiz acompanhar. Não me senti bem indo sozinho, pois que o ambiente é estritamente familiar e homens sozinhos, quando não bem conhecidos antes, são vistos como possíveis curiosos atraídos pela possibilidade da visão de corpos nús.

FB: Quais as regras que devem ser seguidas por quem é simpatizante desta idéia e quer ser praticante?

LRB - A primeira é buscar conhecer bem antes o código de ética naturista, e não ir lá se sua intenção for qualquer outra que não a de procurar entender o sentido do respeito a outro ser humano pelo que ele é, e não pelo limite que a roupa lhe impõe em outros locais da sociedade vestida.

FB: Existe algum caso de pessoas que se julgavam desinibidas e na hora que teve que tirar a roupa em público ficou tímido?

LRB - Sim, e é bem natural, pelo menos na primeira vez que se veem despidas em público. Mas isso passa após a primeira meia hora, quando percebem que ninguém olha para seus corpos quando estão nuas. O que chama a atenção são as diferenças, e lá o diferente é usar roupas. Não leva mais que meia hora para se entender isso e se ficar à vontade, pois que o ambiente estimula essa percepção pelo respeito humano que transmite às pessoas.

FB: E teve também pessoas mais acanhadas que surpreenderam?

LRB - Lembro-me de um casal bem jovem em que ambos se apresentaram como evangélicos, e eu fui escalado para mostrar-lhes todos os ambientes da fazenda até que se ambientassem, como era praxe. Eles tinham permissão para se manterem vestidos durante a primeira hora da visita (como também é de hábito), mas nos primeiros 20 minutos - ao ver tantas crianças. senhoras de idade e famílias inteiras brincando na piscina e nas quadras de esportes completamente à vontade, e em ambiente tão natural e sadio - retiraram suas roupas e seguiram nus pelo resto da visita. Perceberam que, apesar de ter-me apresentado nú e eles não, nosso encontro parecia mais o de grandes amigos do que de pessoas que pertencessem a mundos diferentes.

FB: Eu concordo que o naturismo nada tem a ver com o erotismo que se imagina por aí, mas por outro lado acredito que muita gente que tinha uma vida sexual morna e que tinham vergonha do próprio corpo deve ter melhorado muito em suas vidas conjugais. Isto procede?

LRB: Possivelmente sim, desde que o motivo da dificuldade sexual do casal fosse motivada por vergonha do próprio corpo por parte de um dos parceiros. Lá o ato de estar nú é uma conquista, uma revisão do entendimento de que sexo e nudez precisam vir associados. Digo que a vitória maior acontece por dentro, e não por fora, pois que a libertação dos tabús, e do sentido de que respeito está atrelado ao hábito de esconder o corpo, promove um sentimento enorme de superação, de descoberta de si como se é, realmente, e não pelo que nos foi ensinado como proibido. Essa é a proposta maior da nudez associada ao pensamento saudável.

FB: Quais os trabalhos que são feitos para ajudar aqueles que são iniciantes no naturismo?

LRB - Não existe essa preocupação de se fazer um "trabalho" com iniciantes. O ambiente naturista é tão descontraído e tão desprovido da malícia que vivenciamos na sociedade vestida que se faz impossível não percebê-lo desde um primeiro momento. As pessoas naturalmente se sentem confortáveis para se despir de suas roupas e, mais ainda, de seus preconceitos.

FB: O que é preciso ser feito para estimular os pais a ter um dialogo mais aberto com os filhos em relação à sexualidade, drogas, AIDS e tantos outros temas importantes?

LRB - Tenho minha opinião pessoal a esse respeito, mas prefiro não entrar nessa seara por não ser especialista no assunto. Minha formação profissional é humanística e direcionada para o relacionamento entre pessoas, mas não me julgo autoridade no assunto, pois que não sou psicólogo nem cientista social. Assim seria leviano aprofundar-me em tais questões a título de orientação para outras pessoas. O que aprendi foi buscando meu próprio desenvolvimento.

FB: O senhor tem esperança em uma mudança de mentalidade nessa cultura de corrupção e jeitinho na qual vivemos?

LRB - Esperança eu tenho, e hoje mesmo ainda refletia sobre as mudanças culturais que vimos atravessando em decorrência de um acirrado trabalho da imprensa livre em nosso país, dos muitos referenciais que chegam de toda parte pelo desenvolvimento da tecnologia de informação, e pelas novas regulamentações oficiais que respaldam e reforçam comportamentos compatíveis com uma sociedade mais justa. O que não tenho muita esperança é de que essa mudança tão necessária aconteça dentro de um período em que eu ainda esteja aqui para testemunhá-la. Mas que vai acontecer um dia, não tenho dúvidas de que vai.

FB: Para terminar, qual a mensagem que gostaria de deixar aos leitores do Recanto das letras?

LRB - Recebo sempre muitos comentários carinhosos para todos os meus escritos, e tem sido assim ao longo dos muitos anos que frequento o Recanto. Tenho o privilégio de poder dizer que TODOS os comentários foram sempre carinhosos, pois nunca recebi qualquer tipo de crítica que não se mostrasse como expressão de puro carinho. Por algum motivo que não me detive a tentar entender, as pessoas parecem gostar do que escrevo, e se mostram sempre extremamente gentis, doces e educadas. Acredito que o Recanto tem como característica apresentar-se como um espaço que tende a reunir pessoas com tal perfil. O mundo das letras, na pior das hipóteses, conduz ao pensar, e o pensamento nos leva a reflexões e auto-desenvolvimento. Daí porque entendo ser natural que elas se mostrem sempre tão gentis e carinhosas, posto que sua sensibilidade está permanentemente sendo colocada em prática por conta de suas descobertas interiores. Então, tudo o que posso lhes deixar como mensagem é meu agradecimento por tantas coisas bonitas que me escrevem. Quando me chamam "poeta" me sinto orgulhoso de integrar esse universo, me fazem lembrar que me aceitam como um deles, e isso é extremamente gratificante. Nem sempre respondo aos comentários, posto que são bastante frequentes, e meu tempo é extremamente curto para lhes dar toda a atenção que merecem. Mas saibam todos que eu os amo e lhes sou muito grato por tudo o que me dizem, me estimulando a lhes oferecer o que tiver de melhor em mim, mesmo através de escritos que, em sua maioria, servem-me mais como instrumentos de auto-análise do que para se mostrarem como obra aos demais.


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Uma entrevista bem diferente


Ao longo de três décadas de carreira dei muitas entrevistas, como não podia ser diferente, na profissão que abracei. A razão é que, percorrendo o país todo realizando consultoria e programas de treinamento nas empresas, é comum que ao final de uma palestra ou trabalho reunindo um grande número de pessoas, eu era solicitado para dar entrevistas em rádios locais, ou até em instituições particulares de características das mais diversas, como quando um grão-mestre da radialistas presentes ,me convidaram em sequência para falar em seus programas ao vivo.  Como os trabalhos pelo Sebrae são levados majoritariamente a cidadezinhas interioranas, onde o principal veículo de comunicação ainda é a rádio local, eu faço questão de atender seus convites, pois nesses pequenos municípios uma palestra no auditório da prefeitura local recebe status de "grande acontecimento", uma vez que as opções que possuem são bastante restritas. 

Não é surpresa, portanto, a gente se deparar, nesses momentos, com situações das mais inusitadas, como homenagens geralmente acompanhadas de muitos presentes, e até estojos com placas de prata que eternizam esses momentos. 

Porém, poucos se mostraram tão singulares e criativos quanto o de Fábio Brandão, um estudante de jornalismo que já me pedira uma entrevista antes - aliás, uma entrevista das mais longas que já me fizeram - no qual o rapaz mostrou sua versatilidade e talento para a profissão que escolheu. Dessa vez ele me surpreendeu com o inusitado de seu convite me propondo nova entrevista, só que, acreditem:  todas as perguntas foram elaboradas por ele usando as iniciais do meu nome, já preparadas previamente em papel impresso.. Descobri que a criatividade daquele rapaz, que hoje já deve estar exercendo a profissão, era muito maior do que eu pensei quando da primeira entrevista. E por se ter mostrado um fato tão incomum, único na verdade, que eu saiba. eu fiz questão de deixá-la aqui como prova de como a criatividade e a inteligência pode fazer parte de qualquer profissão. 


Entrevista a Fábio Brandão, acrosticada pelo próprio entrevistador:


Lembranças que o tempo não apaga?

             Tem muitas. O nascimento de meu filho, um casamento de lindas e boas lembranças, a última dor de uma grande paixão. 

Uma banana daria para quem?

Para todos os corruptores e corruptos passivos que não permitem que o país se desenvolva como merece.

Irresistível ao paladar?

               Cuscuz paulista, ambrosia, sorvete de frutas vermelhas, beijo da pessoa amada.

Zero e dez daria para quem?

Zero pro André Marques. Dez para Ana Maria Braga, em se tratando de astros globais. Em termos históricos: Zero para o Bush e 10 para Gandhi.

 

Responsabilidade intransferível?

A de não se permitir entrar na vida de ninguém para torná-la pior do que a encontramos. 

O povo tem o governo que merece?

Ainda não! E tenho pouca esperança de ainda testemunhar esse dia. Nossos políticos ainda não têm consciência do papel que deveriam exercer em benefício do país ao invés de usarem o país para beneficiar a si mesmos. 

Brasil, que país é este?

               Um país que merecia ser respeitado mais do que seu povo está preparado para fazê-lo.

Existe Guerra Santa?

                Só as que travamos com nossos próprios vícios.

Revelação surpreendente?

Não me surpreendo com nada que me rodeia. Mesmo as mais escabrosas eu entendo como decorrentes do despreparo humano frente à vida. 

Tem medo, fome e sede de quê?

                 Medo: do meu próprio medo. Fome e sede? De conhecimento!. 

O que vale a pena quando a alma não é pequena?

                 Tudo o que se faça no sentido de respeitar o espaço compartilhado com outrem. 


Beijo é igual a ato sexual?

                 Depende!  Há todo tipo de beijo, do fraternal ao erótico. Depende de como,

    da hora e com quem o compartilhamos.  

O poder é a pior das drogas?

Não. Tem coisas piores. O poder, quando bem utilizado, é fundamental também para produzir evolução pessoal e do planeta.

Deus você vê de que forma?

Como algo interno, pessoal, que me dá diretrizes, mas que não tenho competência para definir.  

Sonho que ainda não realizou?

Tenho meu filho, plantei árvores magníficas, escrevi meus livros, conheci meu país de ponta a ponta, os lugares do mundo que desejei, trabalho com o que amo...  Acho que não falta nada!... Sou o mais privilegiado dos mortais. 

Terapia perfeita para viver bem?

Estar em paz consigo mesmo e não desejar mais do que o necessário para uma vida simples e feliz

Exagero que você se permite?

Por princípio não gosto de exagero de espécie alguma. Meu exagero maior talvez seja a permanente busca por equilíbrio. 

Incapaz você seria de...?

De tudo o que violente meu esquema de valores e os limites do respeito ao outro. 

Ninguém pode tirar de você o que?

O conhecimento que consegui reunir, que prezo muito. O amor que trago no peito. As lembranças de tudo o que me fez feliz. 

 

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Debatendo o Jeitinho Brasileiro


Entrevista concedida ao jornalista João Alencar como subsídio para uma série de debates sobre o "jeitinho brasileiro", pelo senador Jarbas Vasconcelos, em Recife-PE.

 

JOÃO ALENCAR: Como o senhor definiria o “jeitinho brasileiro”? 

LUIZ ROBERTO BODSTEIN: - Ainda que encarado em outras culturas como característica de versatilidade e adequação a diferentes situações – que constatei em diferentes países por que passei – e tido assim como uma qualidade do nosso povo, no cotidiano de quem o vivencia esse “jeitinho” se revela um preocupante vetor de perda de limites no que toca à conduta ética na sociedade.  Os que se beneficiam desse recurso nas relações sociais insistem em atribuir-lhe um caráter de sagacidade e vocação para o sucesso, quando, na verdade, tal ótica não passa de um disfarce para intenções bem menos nobres e ações espúrias, em que predomina um sentimento de vaidade por reconhecerem-se “mais espertos” que os demais, no sentido pejorativo da expressão.  Nesse sentido, como definição eu diria que o “jeitinho”, tal como foi difundido em nossa cultura, é um câncer social que se alastra e contamina, principalmente, os que não desenvolveram um lastro no seu esquema de valores para idenficá-lo e combatê-lo de forma sistemática, e não apenas nas grandes ações que se percebe com facilidade, mas nos pequeninos atos de cada dia, pois – como já dizia Oscar Wilde no início do século XX – são esses os que fazem ou desfazem o caráter. 

JA.: Do porteiro ao síndico do prédio, do professor ao deputado, vivemos numa sociedade altamente personalista, na qual, geralmente, as características pessoais são mais valorizadas que a impessoal competência do cargo. Por exemplo, comenta-se que tal professor “não ensina tão bem”, mas “é super gente boa”, sendo assim, deve-se aceitar sua pouca competência profissional. Quais as conseqüências sociais dessa quase onipresente dificuldade brasileira de separar o público do privado, as relações pessoais das impessoais? 

LRB: - Tal dificuldade está diretamente associada a uma inegável conduta aética que assumiu uma equivocada conotação de “humanitária”, sob cuja égide se justifica todo tipo de protecionismo, e “deferência” que acentuam a desigualdade entre os que detêm foros privilegiados de qualquer natureza e os que não encontram respaldo para defender sequer os direitos mais básicos das relações humanas.  A prática generalizada de nepotismo, corporativismo e outros “ismos” que se alastram muito mais rapidamente do que os controles criados para restringi-los são praticados sem culpa, pois que, quando argüídos, os que os praticam se defendem com argumentos sustentados por uma suposta legitimidade – pelo menos na ótica deles – com base em instituições universais e quase sagradas como “respeito à família”, ou “ética profissional”, para justificá-los.  Na realidade um eufemismo para uma absoluta incompetência no discernir entre ético e não-ético ou, o que é pior, uma real intenção de obter vantagens pessoais em detrimento do coletivo.  Esse quadro de privilégios restrito ao círculo das relações pessoais é agravado por uma perniciosa postura de condescendência que atropela o sentido de justiça e da escolha por mérito de competência. Na prática o que se configura é uma demonstração inequívoca do velho axioma da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.  Consequência social?  Perpetuação das desigualdades e manutenção do “status quo” dos privilegiados. 

JA: Assumindo uma postura orgulhosa de considerar-se um povo “esperto e desenrolado”, muitas vezes já nem mais percebemos quando contornamos situações adversas em nome da cordialidade. Mas como viver numa sociedade em que a maioria da população infringe e consente com o descumprimento de certas leis? 

LRB: - Eis aí o maior desafio dos que alimentam uma esperança de transformação social via consciência coletiva. A partir do momento em que se constata que tal postura parte, principalmente, dos que deveriam dar o exemplo em função de suas posições de destaque, seria absoluta utopia – ou até mesmo ingenuidade – acreditar que se poderá promover tal mudança de mentalidade de forma pontual, ou através de sanções de caráter legal, que só surtem efeito sob fiscalização sistemática. Ações coersitivas podem impor respeito por medo de punição, mas não educam.  Posso afirmar que o exercício individual e anônimo é tão desgastante e improdutivo que adquire conotação de “quixotismo” ou vocação para auto-martírio.  O resultado quase sempre é de enorme frustração e sentimento de impotência ante o improvável.  Acredito no trabalho “de formiguinha” da grande mídia, retratando exemplos, apontando desvios de comportamento no cotidiano assimilado como “normal” pelas pessoas.  Ainda que intelectuais de gaveta torçam o nariz para tais mensagens via personagens de novelas ou pela arte levada ao grande público, enfatizando apenas as manipulações políticas que se esconderiam por trás, não há como negar os referenciais de comparação que geram para, a longo prazo, estimular a mudança de cultura. Independente dos modismos que se instalam em paralelo, a exposição continuada de temas que afetam o emocional das pessoas irá sempre produzir resultados na elevação do patamar qualitativo da sociedade, muito mais rapidamente do que ações individuais ou isoladas de pequenos grupos. 

JA: Conta-se, num certo estereótipo exagerado, que os comerciantes holandeses diziam que era impossível fazer negócio com um brasileiro antes de se fazer amizade com este. Atualmente, o Brasil está em 70º lugar no último ranking de Desenvolvimento Humano (IDH), medido pela ONU. Pode-se dizer que a prática do jeitinho constitui um entrave ao desenvolvimento econômico e social do País?  

LRB: - Tenho para mim que sim. Não há dúvida que estariamos num estágio social bem mais evoluido não fosse por esta nefasta mentalidade do “jeitinho”. Como também acredito que inverter-se totalmente esse estado de coisas seja tão danoso quanto este quadro que constatamos hoje na nossa cultura.  Minha experiência em culturas opostas à nossa – como na Inglaterra, por exemplo – serviu para me mostrar que a solução para uma quase absoluta displicência com regras não será, de forma alguma, a cobrança e o rigor excessivo na sua observância, como acontece naquele país. O sentimento que se desenvolve é de intolerância ao mínimo deslize individual em prol de um suposto respeito ao coletivo, que torna o convívio terrivelmente sufocante, com repercuções nítidas no emocional das pessoas. É claro que um inglês terá uma resposta bem menos negativa que a produzida em mim ao vivenciar tal intransigência para o cumprimento de regras.  É sair de um extremo para o outro, em que a diferença não vai além da forma com que se lida com o problema, mas o impacto sobre as relações entre as pessoas é igualmente pernicioso.  Acredito no equilíbrio, em qualquer situação, independente da natureza dos malefícios que se pretenda corrigir.  As revoluções são necessárias, sim, mas sempre em caráter transitório, até que uma nova ordem se instale, restaurando o equilíbrio entre os extremos.  Se mantidas como regime de controle de massa, invariavelmente descambam para cenários artificiais que substituem consciência por vigilância, o que jamais prevalece a longo prazo.  

JA: “Nas nossas maiores virtudes, estão os nossos maiores defeitos”. A frase de Sérgio Buarque de Holanda parece-me resumir bem os dois lados da ‘cordialidade’ do brasileiro. O senhor concorda com esse pensamento? Seria possível fazermos das nossas virtudes, apenas virtudes? Isto é, conciliar a eficácia de um sistema individualista anglo-saxão com a cordialidade brasileira? 

LRB: - Falar em construir-se uma cultura “virtuosa” nesse nível me parece utópico demais. Como enfatizei anteriormente, a palavra-chave será sempre o equilíbrio.  Acredito que seja possível, sim, harmonizar cordialidade com um patamar mais elevado de respeito a regras voltadas para o coletivo. Mas somente se tal interface for construida de dentro para fora, reunindo ações públicas e privadas em torno de um processo educativo ininterrupto e auto-sustentável através dos benefícios progressivos que se consiga vislumbrar ao longo de sua difusão. 

JA: Muitos são aqueles que afirmam que apesar de todos os problemas atuais, estamos avançando numa maior conscientização da sociedade, que a opinião pública está mais vigilante, etc. O senhor concorda com tal pensamento ou tudo isso não será suficiente enquanto não houver uma “política de tolerância zero”, como o senhor defende no artigo? 

 LRB: - Como deixei claro no trecho do artigo a que você se refere, não defendo essa “política de tolerância zero” como algo que deva acontecer de cima para baixo, mas de dentro para fora, conforme mencionado acima. Concluo o artigo enfatizando a necessidade da auto-cobrança, da conscientização de cada um para os malefícios que produzimos para toda a sociedade – inclusive com grandes prejuízos individuais – com a postura de condescendência para com o “jeitinho” que permeia as relações do cotidiano. A tolerância zero tem que espelhar uma tomada de posição quanto à forma como minimizamos os efeitos daninhos das nossas próprias ações do dia à dia, como quando “encostamos” no amigo que encontramos lá na frente da longa fila de um caixa bancário, ou escolhemos pagar a propina do policial corrupto achando que é mais vantajoso do que pagar a multa de trânsito, o que não é verdadeiro. Na prática só contribuímos para prolongar os privilégios que nos oprimem, e dos quais só reclamamos quando os descobrimos nos outros.  A postura ética a que me referi é uma responsabilidade de cada um de nós, não apenas a que se cobra dos que se descuidam e se deixam flagrar em público, sendo fator indispensável para a formação de uma sociedade mais consciente do seu papel na introdução da mentalidade que cobramos dos governantes que elegemos.

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A temida visita da fiscalização


Entrevista concedida à jornalista Giselle Oliveira, para gravação de programa direcionado para micro-empresários em programação específica para esse público na TV aberta .

        

Giselle Oliveira - Como atender a demandas da fiscalização?

Luiz Roberto Bodstein:  Antes de tudo é preciso se estar seguro de que a empresa está em dia com suas obrigações fiscais, tributárias e dentro do que estabelece a legislação em vigor para funcionamento.  Isso já é 70% do caminho andado.  Temos que proceder como se todos os dias estivéssesmos sendo demandados pela fiscalização, e não como se a presença de fiscais fosse uma remota possibilidade.   Um segundo ponto é abandonar a postura de que o fiscal é um "inimigo", que precisa ser combatido ou neutralizado.  Uma fiscalização, realizada como se deve, pode ser uma excelente oportunidade para esclarecermos dúvidas e fazermos ajustes na gestão que possam nos manter dentro dos quesitos de exigência legal, além de podermos extrair uma série de informações que nos ajudam muito na condução da empresa dentro dos padrões esperados. 

O que se precisa é de uma postura por parte das empresas para que se veja a fiscalização como oportunidade de correção de rota, e não como ameaça. 

G.O. - Como fazer para minha empresa estar enquadrada?

LRB:  Acredito que a questão é:  o que falta na minha empresa para que ela esteja em dia com suas obrigações fiscais, e possa transformar o fiscal num "consultor" que irá ajudá-lo a se enquadrar no que a legislação determina.  Todo fiscal, a princípio, está preparado para distinguir um engano de procedimento, o que é natural acontecer, de ato intencionalmente lesivo, ou seja:  má fé na condução do negócio.  Desde que o empresário se propõe a expor de forma transparente as suas dúvidas e solicitar ajuda para enquadramento, o papel do fiscal é ajudá-lo da melhor forma possível nesse processo.  O objetivo não é simplesmente punir, mas, antes de tudo, corrigir.  Esse é o real papel da fiscalização.

G.O. - Como trabalhar o treinamento para evitar problemas?

LRB: Não há dúvida de que, num mercado dinâmico como é o nosso hoje em dia, manter a competência depende de uma atualização permanente de conhecimentos, de incorporação de novas tecnologias, além de adequação contínua às exigências do próprio mercado - que mudam todos os dias em função dos referenciais proporcionados pela tecnologia de comunicação.  Hoje a informação chega rapidamente a qualquer canto do planeta, e com isso o padrão de exigência fica cada vez mais elevado, e o cliente sabe bem o que quer... ou, no mínimo, sabe muito bem O QUE NÃO QUER.   E só sobrevivem as empresas que estão atentas a esse dinamismo todo, e que procuram estar em dia com o que o mercado pede, não perdendo uma única oportunidade de se atualizar com vistas a aperfeiçoar produtos e serviços de forma contínua.   Isso se faz com muito treinamento, utilizado como instrumento permanente de sustentabilidade num mercado altamente competitivo.  


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RH na conscientização social de funcionários

 

Entrevista concedida à jornalista Maiara Tortorette, responsável pelo jornal "Carreira & Sucesso", da Catho Online, e publicado na newsletter de enorme audiência dessa que é uma das mais importantes instituições de recursos humanos do país.

 

Carreira & Sucesso: - Qual a importância do RH na conscientização dos colaboradores?

      Luiz Roberto Bodstein: - Por se constituir no órgão responsável por tudo o que acontece com os talentos humanos na empresa, o RH é que concentra todas as condições para levar a informação certa ao público certo, e no momento mais adequado. essa forma, nenhum outro órgão poderia cuidar melhor da conscientização do seu grupo-alvo já que, teoricamente, é o que reúne os profissionais e os recursos necessários para atingí-lo de maneira eficaz, aliando conhecimento de causa e competência técnica.   

C&S: - Como o RH pode interferir no incentivo de ações sociais?

     LRB: - Em se tratando do setor que tem acesso direto aos colaboradores e, consequentemente, reúne informações importantes sobre o perfil do seu público, pode assim elaborar campanhas de divulgação e conscientização para a importância do tema, como também da concorrência de todos para que os objetivos propostos sejam mais facilmente alcançados.  Dependendo do modelo da estrutura organizacional interna, RH e outros órgãos voltados para o social podem estabelecer uma competente parceria para sensibilização e estímulo para as ções empreendidas pela empresa, bem como oferecer o necessário suporte  para engajamento d  os colaboradores nas etapas propostas.     

C&S: - Quais medidas podem ser tomadas?

    LRB: - Como mencionado acima, o roteiro de ações para atingir tal resultado poderia seguir uma sequência como: 

- Escolha das ações sociais que mais se identifiquem com a vocação institucional;

- Identificação dos públicos a serem atingidos na condição de beneficiário direto e indireto das ações, seguida de um diagnóstico de suas reais necessidades para que o resultado se mostre efetivo e mensurável num determinado prazo.

- Capacitação dos executores para uma adequada condução do processo, bem como estabelecimento de canais competentes de comunicação com o público-alvo das ações, para efeito de conscientização e feedback quanto aos resultados, ou seja:  criar uma via de mão dupla para distribuição e captação de informações  com o usuário.        

C&S: - Qual a importância da conscientização social dentro das empresas?

     LRB: - As estatísticas têm comprovado o grande retorno que as equipes de trabalho têm oferecido às empresas que apostam em ações sociais nas quais elas se veem envolvidas.  Elas acabam desenvolvendo um nível bem mais elevado de sensibilidade para diferentes realidades, permitindo que entendam as interfaces entre estas e as suas próprias, independente do grau de diferença entre ambas. Mas, principalmente, tal mobilização permite que muitos descubram talentos para atividades que nem sonhavam que poderiam exercer, e isso, mais do que um desafio a vencer, pode se constituir numa experiência altamente gratificante que envolve aprendizagem, comprometimento e identificação com causas de vital importância para o desenvolvimento tanto individual quanto coletivo.  

C&S: - As atitudes dos profissionais podem interferir na imagem da organização?

    LRB: - Eu não diria apenas que "podem": a imagem da organização é resultado direto da forma como as pessoas que a integram se relacionam com o seu meio, das posturas e reações que assumem no contato com esse meio no seu cotidiano. Eu gosto muito de uma frase de Oscar Wilde num de seus livros que li ainda na minha infância: "São os pequenos atos de cada dia que fazem ou desfazem o caráter". Transportada para a realidade das empresas, são as pequenas ações que pontilham o dia a dia das pessoas, e não os momentos ocasionais de extremos, que deixam as marcas mais fortes e passam a incorporar a cultura da organização e responder pela imagem que ela repassa ao seu mercado.  A empresa é respeitada ou desacreditada pelo histórico que acumula, e não por eventuais erros pontuais que possa cometer, independente de sua gravidade.  O histórico pode servir tanto para ratificar quando para justificar um erro eventual, não sendo este último - por si só - decisivo para desacreditá-la.     

C&S: - Atualmente é muito comum falar em sustentabilidade, e outros assuntos relacionados. Porque esses fatores se tornaram tão importantes?

     LRB: - Porque os sinais de desaparecimento da maior parte dos recursos que hoje utilizamos estão cada vez mais evidentes.  Tudo aquilo que a ignorância do passado nos apresentava como "presente da natureza",  de forma permanente, hoje se sabe que não é bem assim:  a nossa tecnologia não acompanhou a mesma velocidade da degradação que impusemos ao ambiente do qual dependemos para sobreviver.  E é certo que não atingiremos o ponto de   reverter esse processo antes que seu estado atinja um ponto que torne a vida insustentável,  se  de imediato não iniciarmos um esforço conjunto  para retardar o processo de degradação ambiental,  pelo menos ao ponto que permita um trabalho    de médio e    longo prazos para adequar nossos hábitos  à preservação efetiva do meio como garantia das condições mínimas de vida.   

C&S: - Comentário sobre o assunto.

     LRB: - A consciência para as questões que envolvem o contexto sistêmico que, queiramos ou não, afetam a  todos, há muito deixou de ser problema circunscrito apenas a quem detém o poder político para mudar tais realidades.  Nosso papel já começa até na escolha dos que têm esse poder, e continua na união de forças para efetivamente tirar as ações do plano das idéias, simplesmente, para torná-las parte do nosso dia a dia.  Ao poder público compete oferecer os meios para que isso aconteça - incluindo aqui também a educação das pessoas para as consequências da omissão - mas a grande responsabilidade está na forma como contribuímos para que tal consciência se estenda a todas as ações do nosso cotidiano, e não fiquemos à espera que os poderes constituídos se incumbam de tudo, já que isso jamais acontecerá sem o concurso de todos, que são, igualmente, causa e consequência dos problemas.

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Civilidade como exercício de cidadania


 Entrevista concedida a Ruy Guedes Stefanini – Mestrando em Jornalismo pela Universidade de Brasília, que procurou o Consultor para reunir subsídios para sua tese de Mestrado.

 

Ruy G. Stefanini – Há alguns anos o senhor publicou diversos artigos com tema no comportamento em sociedade e cidadania.  De lá para cá não mais se expressou sobre o assunto. Por que do corte tão abrupto?

LUIZ ROBERTO BODSTEIN – Na verdade não houve uma mudança tão repentina assim.  Eu trabalhei com esse assunto ao longo de quase uma década.  O “Alerta Cidadão”, principal veículo de comunicação que eu utilizava para divulgar minhas idéias pela internet, foi encerrado na sua 159ª. edição.  Se você considerar aí a frequência de um ou dois números mensais, dá prá ver que atuei um bocado de anos na defesa do tema.

RGS - Houve alguma razão específica para a repentina mudança de rumo?

LRB – Uma só eu não diria.  Houve todo um conjunto de fatores que contribuiu ao longo de um extenso período para a decisão.  Na realidade o que aconteceu foi um acúmulo de decepções pela falta de respostas num contexto em que predomina uma mentalidade egocêntrica que não leva em conta a divisão do espaço com as demais pessoas.  Nosso país ainda está longe de se importar com o respeito a regras mínimas de convívio como fator decisivo para melhorar sua qualidade de vida. 

RGS – Poderia explicar melhor, Professor?

LRB – Claro!  No Brasil, excetuando os que se dedicam ao assunto como objeto de militância, o povo em si não tem a menor noção da diferença entre civilidade e civismo, e culturalmente estabeleceu um comportamento defensivo como resposta a este último, mas não desenvolveu qualquer percepção do que seja civilidade, e mesmo quando entende a diferença, não a cultiva nas suas relações do cotidiano.  Civismo trata tão somente do respeito às instituições formalmente estabelecidas, a dispositivos legais.  A postura do brasileiro nesse aspecto é reativa, ou seja:  ele se limita a obedecer “sob vigilância”, porque fica sujeito a sanções quando as viola.   Civilidade, em contrapartida, não está vinculado a um cumprimento exigido por lei, mas pela consciência de cada um para as boas práticas de convivência tão somente, que tornariam melhor a vida de todos.  Trata-se de respeito a normas de convívio entre os membros de uma sociedade. 

RGS – E essa foi a razão que determinou a sua desistência na defesa de suas teses sobre civilidade?

LRB – Veja só:  eu nunca desisti de defender minhas idéias a respeito.  Eu simplesmente mudei a forma de atuar.  Houve um momento em que percebi que a única coisa que eu estava colhendo como resultado era um enorme desgaste emocional, mas nada de prático, efetivamente. Até então eu acreditava que as pessoas não praticavam civilidade porque não tinham consciência de sua importância para melhorar suas próprias vidas.  

RGS – E não era isso?

LRB – Não!  Concluí naquele momento que a prática não ocorria porque elas não traziam dentro delas o quesito indispensável para que isso pudesse gerar uma cultura:  a educação, o respeito ao outro como base de sua formação.  Seria como esperar que um computador produzisse uma determinada resposta para o qual não fora programado, e nem sequer possuisse em sua memória o programa exigido para processá-la. 

RGS – Como se alguém quisesse criar uma apresentação de slides, mas não tivesse o Powerpoint  instalado?  Ou tentar editar um texto sem ter o Word?

LRB – Tipo isso! 

RGS – E como foi que o senhor chegou a essa conclusão?

LRB – Por observação do cotidiano delas, pura e simplesmente!  Qualquer um que se disponha a fazer o mesmo vai constatá-lo numa simples saída para ir na padaria da esquina.  Você segue numa calçada estreita e se depara com um grupo de pessoas falando “abobrinha” e tomando toda a passagem.  Se você parar na frente delas, no máximo irão se virar com um olhar de “tá querendo o que?”, mas raras serão as que irão se tocar de que você precisaria descer à rua para continuar em frente.  Se você se irritar a cada vez que tais coisas acontecerem, ou reclamar porque ignoram você da mesma forma que o vira-latas que também escolheu a rua, vai passar o resto da vida se aborrecendo, sem que nada mude. 

RGS – Então o problema está mesmo na educação das pessoas.

LRB – Com certeza!  E não se trata de algo que aconteça aqui ou alí.  Isso é geral!  As que se tocam para essas pequeninas coisas são rarissimas.  Faça o teste dos 7 dias: Conte nesse tempo quantas cedem o lugar para o idoso no ônibus, que entra e encontra o lugar destinado a eles ocupado por um jovem de 20 e poucos anos.  Os que sabem que teriam que levantar fingem dormir, mas a maior parte nem se toca.  Certa vez tive que pedir que um jovem cedesse o lugar de deficientes físicos a uma senhora que usava muletas, pois o rapaz fez que não era com ele. 

RGS – Isso é mais comum em metrópoles como Rio e São Paulo?

LRB – Até há uns 15 ou 20 anos atrás eu diria que sim.  Hoje em dia essa mentalidade se alastrou para as cidades menores.  O tratamento está ficando cada vez mais impessoal, mas distanciado.  Poucos são os que hoje cumprimentam estranhos na rua nessas cidades menores, como acontecia em tempos em que isso valia como regra.  O mais estranho é o paradoxo:  ao mesmo tempo que os meios de comunicação se aprimoraram, levando a informação a todos os recantos do país – o que parecia ser uma forma de melhorar a conscientização – aconteceu o contrário:  parece que o interior entendeu que o padrão de modernidade dos grandes centros mostra que cumprimentar o vizinho, estar atento à presença do outro, ou compartilhar de forma respeitosa o espaço comum é “coisa de caipira”.  Para agir como “gente de metrópole” é preciso ver os outros como “os outros”. A grosso modo essa é a mensagem que fica! 

RGS – O encerramento do “Alerta Cidadão” foi motivado por esse sentimento?

LRB – Com certeza!  Embora quem tenha lido a justificativa apresentada na última edição possa entendê-la como de cunho político, a decepção que eu traduzo no texto não diz respeito tão somente àquele momento político triste que vivíamos na ocasião, com tantos escândalos nos escalões governamentais em clima de total impunidade.  O fato em si era o climax de uma constatação que já vinha sendo construída bem antes: de que o país estava se lixando para aquele estado de coisas.  Se a população de um país como um todo passou a enxergar suas próprias mazelas como normais, o que se esperar de quem detem o poder e apenas repete o comportamento que trás de raiz na sua essência?  Uma coisa é consequência da outra.  

RGS – “Quando a desesperança toma conta” – que foi o título da sua última edição do “Alerta” - se mostrou uma espécie de desabafo contra esse estado de coisas...

LRB – Sim!  Acho que bem mais do que um simples desabafo:  foi um gesto de jogar a toalha, mesmo.  Foi o reconhecimento do quanto eu estava dando murro em ponta de faca.  Eu me senti exatamente como naquela figura do marisco jogado entre a onda e o rochedo, que não acrescenta coisa alguma à força do mar nem à resistência da pedra.  Isso tudo me veio numa noite em que eu me deitei ainda na militância e acordei com um sentimento enorme de derrota, de alguém que grita em meio ao deserto.  Minha auto-estima estava profundamente ferida, o sentimento de impotência era o maior que eu sentira em toda a minha vida! 

RGS – E essa impotência não fez com que sua auto-estima ficasse ainda mais abalada depois, como consequência de ter abandonado o campo de batalha?

LRB – Ao contrário!  Minha auto-estima entrou em alta algum tempo depois que tomei a decisão, pois que pude compreender aqueles momentos pela ótica de observador, e não como o protagonista de um plano fracassado de transformação social, o que seria impossível dentro das minhas possibilidades.   Um amigo sem querer me alertou para meu real papel no contexto, ao perceber meu desgaste e me falar para eu me concentrar no meu lado profissional por uns tempos, deixando as questões sociais para segundo plano.  Foi quando percebi que, na minha profissão – em que tinha o respeito de parceiros, alunos e clientes – eu tinha formas de passar essa mensagem e contribuir para as mudanças de forma sistemática sem, necessáriamente, desviar-me dos rumos que eu traçara para mim.  Senti o momento atravessado como a batalha abandonada estrategicamente para continuar na guerra que tinha a natureza como aliada para garantir a vitória final.  Eu sou um educador, e meu papel político e social poderia perfeitamente ser exercido dentro de meu contexto: nas salas de aula, nos projetos empresariais, nas conferências e debates para os quais era convidado.  Era a MINHA forma de dar continuidade à militância dentro do que eu sabia fazer bem, e a contribuição que eu poderia dar às tantas pessoas que me ouvem, em prol da evolução do meu país. Sou um defensor ferrenho da educação como o grande fator de transformação social. 

RGS – E como o senhor enxerga agora aquela situação que gerou todo esse desgaste?

LRB – Em relação à mim mesmo como um enorme aprendizado:  descobri que não se pode apressar o ritmo natural das coisas.  Hoje não acredito que levantar bandeiras, simplesmente, produz efeito a curto prazo. Tenho total convicção de que a melhoria virá, de qualquer forma, mas que não há como antecipá-la por mera vontade individual.  Não pelo menos sem algum fator extraordinário em andamento, como um grande lider ascendendo como modelo, ou um momento de enorme impacto que altere toda a estrutura social do contexto onde seja inserido.  O japão não seria a potência que é hoje sem a segunda guerra mundial, que quase o destruiu.  A Rússia não estaria emergente agora se não tivesse encarado de frente a dolorosa renúncia aos seus anseios de dominação do planeta.  Grandes eventos promovem grandes mudanças, numa espécie de “reengenharia” indispensável à transformação da mentalidade reinante.  Não ocorrendo tal ruptura o processo acontece no estilo “Kaizen”: as coisas vão mudando em doses mínimas, quase imperceptíveis, e se estendem por um longo período de tempo até se estabelecer parâmetros de comparação de um momento bem recente com um que ficou lá no passado, para se poder dimensionar as conquistas obtidas em dosagem homeopática.  O Brasil ainda está no meio do caminho. 

RGS – Muito grato, professor, pela entrevista, e espero encontrar o senhor nesse momento em que essa consciência de que o senhor fala já esteja mais integrada ao cotidiano das pessoas.

LRB – É o que eu também espero que possa presenciar antes de encerrar a minha militância como integrante do planeta.  Eu é que agradeço pelo seu interesse, e lhe desejo sucesso na sua tese de Mestrado.


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Responsabilidade Social nas empresas

 

A jornalista Patrícia Bispo, responsável pelas matérias do website RH.COM.BR, entrevistou o consultor Luiz Roberto Bodstein para inserir no portal matéria sobre a importância dos programas sociais nas empresas brasileiras.   Abaixo a íntegra da entrevista:

 

 

RH.COM.BR - Qual a sua opinião sobre a importância dos programas sociais para as empresas e para os colaboradores?

Luiz Roberto Bodstein - Atualmente todas as metodologias dos Programas de Qualidade nas empresas preconizam que os programas sociais são parte indispensável do processo de melhoria, já que os novos conceitos de mercado não aceitam mais desvincular-se o resultado institucional do papel social que a empresa deva desempenhar no contexto onde ela se insere.  E quando se fala em programa social, ele não fica restrito ao âmbito interno, aquele que só beneficia o seu quadro de colaboradores.  As empresas de hoje precisam também trazer algum tipo de benefício coletivo mais amplo, oferecendo algum retorno às comunidades as quais estão integradas.  Isso significa que o papel exigido é bem maior do que o de simples prestadora de serviços ou produtora de determinados bens:  ela se torna parceira da comunidade e co-responsável pelo seu desenvolvimento através de benefícios paralelos de toda ordem, que não precisam ter qualquer vínculo com a razão de ser da organização.  Colaboradores ou comunidade, a empresa tem hoje que se empenhar para torná-los mais felizes, proporcionar-lhes uma melhor qualidade de vida. Isso é parte integrante dos princípios da qualidade, amplamente difundido, que não se trata mais de opção de algumas instituições, mas da sobrevivência de todas. 

RH - Esses programas devem ser estimulados? Por quê?

LRB - Os programas de qualidade a que me referi anteriormente já trazem esse estímulo como conteúdo obrigatório de suas metodologias de implantação, conhecidas como "Ações de Incentivo à Qualidade".  Tais ações envolvem campanhas internas, capacitação técnica de pessoal, premiações, participação da família na empresa, etc.  As chamadas "ações de carga rápida" - que promovem mudanças internas com grande impacto entre o pessoal - também fazem parte dessas medidas.  Em nível oficial, os Prêmios Nacionais da Qualidade, instituidos na grande maioria dos países, constituem-se em grandes programas de estímulo, que envolvem diretamente o lado social.  Estamos vivendo uma época de conscientização cada vez maior para a questão da humanização no trabalho como causa direta para o sucesso das empresas. 

RH - De que forma os programas sociais podem interferir na rotina de uma organização?

LRB - De todas as formas possíveis, a partir da premissa de que existe uma relação direta dessa preocupação na empresa com o "animus" das pessoas para atingir as metas propostas pela  Direção.  Diga-se de passagem que programas sociais bem sucedidos não são aqueles que só oferecem vantagens financeiras:  em minha experiência como consultor em grandes empresas tenho visto muitos projetos fracassados por conta de gente muito bem paga.  Num elenco de 10 fatores motivacionais para os colaboradores, estatisticamente a remuneração nunca está acima do 5º ou 4º lugar.  O reconhecimento pelo desempenho, o respeito nas relações e a valorização de suas atividades vêm sempre antes.  Então para a questão sobre como os programas sociais podem interferir, eu diria: de TODAS as formas!  Eles hoje se constituem em sustentação dos processos institucionais, e não em apenas mais uma alternativa para melhorar o desempenho. 

RH - Quais são as maiores dificuldades encontradas, no Brasil, para se desenvolver programas sociais?

LRB - A mais difícil é a da falta de consciência de uma grande parte do empresariado.  Não tanto nas multinacionais ou nas de grande porte, mas entre micro e pequenos empresários.  Geralmente eles não têm o mesmo acesso - por questões de custos e de disponibilidade - para se desenvolverem na mesma proporção, terem acesso a programas de qualidade, sistemas de garantia de qualidade como as Certificações, etc.  Com isso ficam defasados em relação às maiores.  Seus donos geralmente fazem tudo: são diretores, gerentes e vendedores do seu próprio negócio.  Não podem se dar ao luxo de viajar para um curso de uma semana, porque senão a empresa pára. O Governo não facilita muito também, impondo-lhes uma pesada carga tributária e limitando sua margem de lucro ao ponto de mal terem como manter seus negócios, quanto mais fazer alguma reserva para se atualizarem.  O próprio servidor público também está bastante defasado com relação ao que se faz nas grandes empresas privadas.  Quando faço consultoria para estatais já não me surpreende o fato de que a mais banal das ferramentas que aplico no setor privado para eles se constitui em enorme novidade!  Supervalorizam recursos metodológicos considerados obsoletos pelo mercado desenvolvido.   Se considerarmos que só as microempresas empregam algo em torno de 70% da mão de obra nacional, e que os restantes 30% ainda englobam, além do serviço público, os incrédulos, que continuam defendendo que treinamento e programa social é só "prá inglês ver",  temos aí um quadro ainda bem distante do ideal.  Basta mencionar que nos últimos 20 anos não avançamos absolutamente nada em quantidade da mão de obra treinada.  Estatísticamente permanecemos dedicando a treinamento o mesmo 1% do tempo de trabalho do funcionário, que era praticado nas décadas de 70 e 80, enquanto que no Japão esse índice é de 10%.   Também é de 1% sobre o faturamento o índice de investimento em pesquisa, contra 5% nos EUA e Europa, e 8 a 12% no Japão.   Com tanto descaso para treinamento e pesquisa, não poderíamos estar melhor do que estamos.  Mas com tudo isso tivemos grandes avanços nesses mesmos 20 anos, porque melhoramos em qualidade e não em quantidade.  Esse mesmo 1% de trabalhadores foram treinados para definir indicadores coerentes com as metas, e assim obtiveram resultados bem superiores aos de 20 anos atrás.  A fórmula está correta, mas precisamos torná-la acessível a todos.  A maioria ainda nem tem conhecimento de que existe uma forma melhor de fazer o que fez até aqui.  Precisaríamos convencer a alta cúpula, até mesmo no governo, de que o caminho é investir nas pessoas.  A grande maioria "entra na onda" por causa da crescente pressão, mas não acredita que é por aí. Mas terão que aceitar, mais dia, menos dia.  Esse é o lado positivo, entra inúmeras desvantagens, da globalização da economia. 

RH - Quem mais lucra com as iniciativas sociais? A empresa, os colaboradores ou a própria sociedade?

LRB - Todos, sem distinção:  os colaboradores se sentem valorizados e retribuiem com melhor desempenho;  as empresas atingem suas metas e aumentam seus lucros; com isso ampliam suas ofertas de trabalho, trazem divisas para o país e cumprem seu papel social. 

RH - Você poderia apontar algumas vantagens e desvantagens de se desenvolver programas sociais?

LRB - Vantagens:  todas!  Como já ficou bem explanado nas questões anteriores.  Desvantagens? Não consigo imaginar nenhuma, exceto para aquelas empresas que ainda não os utilizam.  As estatísticas têm provado o grande retorno que as equipes de trabalho tem oferecido às empresas que nelas apostam.  Creio que se o Governo oferecesse mais incentivos ao desenvolvimento social, e não só ao econômico, oferecendo estímulo a capacitação, a um custo mais acessível às micro e pequenas empresas, com certeza poderíamos atingir um patamar qualitativo bem superior ao que estamos agora, e possivelmente mais rapido do que o fizeram na América e na Europa.  Basta dizer que, embora o número de empresas Certificadas pelos sistemas de garantia de qualidade no Brasil sejam infinitamente menores, o nosso crescimento anual foi o mais alto do mundo:  13% ao ano, contra 10% no resto do mundo, superando inclusive os Tigres Asiáticos.  Imaginem se tivéssemos mais apoio!

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A jornalista Waléria de Carvalho, do site RH.Com, solicitou que o conteúdo de nossa conversa, originalmente em formato de perguntas e respostas. fosse transformado em texto para adequação à sua coluna no portal, focada em Recursos Humanos. Abaixo a íntegra do texto entregue para divulgação:


O jovem profissional e o Mercado de Trabalho

 

Houve uma época em que o currículum a ser apresentado em uma entrevista de seleção profissional era uma das principais preocupações do candidato a emprego.   Era comum colecionar-se certificados de cursos a que se submetera ao longo da carreira, e listá-los, detalhada e cuidadosamente, para evidenciar conhecimento no assunto requerido.  A proporção do contato direto com os quesitos – traduzida pelo período de exercício efetivo das funções exigidas – era um componente decisivo na escolha do futuro ocupante de um cargo.

Muita coisa mudou, desde então.  Atualmente o currículum se presta apenas como roteiro para que o entrevistador explore as questões que lhe interessam.   Se antes eram verdadeiras enciclopédias sobre a vida do candidato, agora são bem mais concisos, diretos e objetivos.   Devem mostrar apenas os aspectos fundamentais da carreira do profissional.  Detalhamentos são explorados na medida em que se relacionem com as características exigidas.

Até um histórico de sucessos no passado pode ser um grande obstáculo para que esse profissional seja considerado ajustado aos novos tempos.  Ele precisa antes provar que não ficou acorrentado a uma única forma de buscar resultados, que não conduz seu raciocínio sempre pela mesma lógica, que não traz para o seu presente os vícios e a estrutura de ação que utilizava no passado.

O que o mercado está buscando agora é o “profissional-camaleão”, aquele funcionário que desenvolveu uma inesgotável capacidade de adaptação a toda gama de situações que possa vivenciar,  que consegue enxergar no novo  a sua motivação para vencer, que vê obstáculos como desafios a serem transpostos, e não como empecilhos à sua trajetória.  Isto porque o contexto atual é outro, a forma de atuar é diferente,  e igualmente diversas são as formas de mensurar e tabular os resultados, até porque mudou também o conceito do que se espera como resultado.  E é lógico que, num profissional com esse perfil, o que menos importa é o histórico que ele possui. 

A questão da empregabilidade no mundo globalizado está passando por uma grande crise, neste primeiro momento.  Vê-se no mundo inteiro um cenário sem parâmetros na história moderna da humanidade.   De repente as ações que antes eram consideradas como um caminho infalível para os resultados desejados deixaram de representar qualquer garantia para se chegar a eles.  

Apesar de as novas regras se constituírem num enorme desafio, ao mesmo tempo elas favorecem enormemente aos jovens que estão tentando sua primeira colocação.  Enquanto que antes eles costumavam levar desvantagem disputando a mesma vaga com um candidato mais experiente, hoje em dia, como dissemos, o que conta muito mais é a sua ousadia para lidar com o novo e a sua capacidade de adequação e aprendizagem.   Isso faz com que esses jovens saiam com grande vantagem em relação aos mais velhos, que já trazem vícios dos quais têm dificuldade de se libertar, tanto por estarem acostumados a um mercado que valorizava os seus conhecimentos, quanto por não assimilar com tanta facilidade as novas tecnologias como o profissional jovem, que já cresceu dentro delas. 

O fato é que a globalização decretou o fim da era das generalidades, e estabeleceu que a especialização é o caminho para o desenvolvimento.  Daí que esse pensamento  alterou substancialmente tanto o direcionamento dado á preparação formal dos profissionais quanto o padrão de exigência do novo mercado que se estruturou a partir daí,  e começou a enfatizar os quesitos técnicos de formação comprovável em detrimento do conhecimento notório  da fase anterior. 

Desenvolver um conhecimento específico, possuir um diferencial em termos de Mestrado ou Doutorado, além da formação acadêmica de sua especialidade, e um elevado grau de determinação aliado a um perfil adaptável e ousado  passou a se constituir em fator decisivo na hora de conseguir uma boa colocação.  Quem não se preocupar em preencher estes quesitos na hora de buscar um vaga, principalmente em se tratando do primeiro emprego, enfrentará uma difícil concorrência, e dificilmente conseguirá algo em que possa apostar em termos de futuro.     

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Preparando-se para uma entrevista de Recrutamento e Seleção


Entrevista concedida à jornalista Patrícia Bispo para sua coluna sobre Recursos Humanos na revista Paola


Revista Paola: O que é proibido fazer e dizer numa entrevista de trabalho?

Luiz Roberto Bodstein:  Não olhar nos olhos do entrevistador é um dos pecados mortais: passa insegurança e levanta dúvidas quanto à honestidade das respostas. Não se deve dizer mais do que o necessário para elucidar o que se pede, e jamais colocar opiniões pessoais a respeito dos temas abordados, a menos que o entrevistador pergunte.

RP: E o que deve ser dito sempre?

LRBTudo o que for perguntado, e sempre com a maior honestidade possível. O entrevistador é treinado para separar a realidade dos "enfeites" utilizados pelo entrevistado para tentar impressionar.

RP: Deve-se falar somente o que é perguntado?

LRBDeve-se permanecer dentro do assunto que está sendo explorado, mas não necessáriamente dando respostas monossílábicas ou concisas demais que não permitam ao entrevistador conhecer melhor o pensamento do entrevistado. É totalmente contra-indicado, porém, que o entrevistado se estenda demais, para mostrar seu conhecimento do assunto, principalmente quando esse conhecimento não seja realmente profundo para lhe dar segurança. Isso é facilmente percebido pelo entrevistador.

RP:
Como discordar do que é dito por quem está entrevistando?

LRBSe se estiver seguro com relação à discordância, pode-se fazê-lo naturalmente, mostrando o seu ponto de vista, mas sempre de forma gentil e simpática, e jamais "batendo de frente" com a afirmativa do entrevistador. A conhecida saída do "Sim, mas..." é sempre válida. Não é raro que o entrevistador use desse recurso para verificar até que ponto o entrevistado tem segurança em um assunto, ou em relação à sua própria opinião para externá-la de forma clara, direta e gentil. Sendo colocada de forma assertiva, a discordância pode ser um ponto a mais para o entrevistado. Mas é preciso usar de diplomacia e inteligência.

RP: Qual a roupa mais adequada para esse tipo de entrevista? E quanto à cor e estampas? E como deve ser a maquiagem, bijuteria, esmalte e cabelo?

LRBPara os homens, o paletó e e a gravata via de regra são bem-vindos. Mas é claro que o tipo de cargo a que se concorre tem tudo a ver com a roupa com que se apresenta. Para uma vaga a motorista particular, por exemplo, o traje social é indicado, mas se for para dirigir ônibus ou caminhões em uma transportadora, é claro que isso não conta. Há que se ter senso de adequação e coerência. Se houver dúvida, deve-se escolher o melhor traje, porém sem excessos nem sofisticações. Se a opção for por gravata e paletó, atenção para o colarinho bem passado e arrumado, a gravata com o nó bem dado. Um social "caricato" e desleixado é pior do que um esporte simples, porém de bom gosto. O paletó ou "blazer" pode estar desabotoado para dar um ar mais descontraído, mas sempre bem arrumado e discreto. O tamanho também influi: paletós curtos demais ou mangas encobrindo parte das mãos são extremamente deselegantes e causam má impressão.
Para as mulheres vale uma regra geral: discreção! Nada de estampas chamativas, maquiagem excessiva, bijuterias grandes e brilhantes, esmaltes espalhafatosos, penteados mais próprios para a noite, ou com aquele tipo de "escova" nada natural. Muito menos roupas colantes, com decotes generosos ou sensuais demais. Pode parecer que, ao invés de se mostrar o que se sabe, a intenção é seduzir o entrevistador.

RP:
É necessário levar currículo e portifólio com trabalhos anteriores?

LRB:   Isso costuma sempre ser orientado quando da chamada para a entrevista. Se não for, deve-se sempre tê-lo à mão. O currículum a ser apresentado deve ser o mais objetivo possível, sem grandes detalhamentos, que devem ser explorados durante a entrevista. Hoje existem técnicas específicas para elaboração de currículos profissionais.

RP: Pode atender telefone celular durante a entrevista?

LRB:   De forma alguma! É altamente deselegante e pode comprometer toda a entrevista. Celulares devem ser desligados e, de preferência, mantidos guardados todo o tempo. Ao contrário do que se pensa, exibir o celular pode ser bem mais "brega" do que um sinal de "status", dependendo do ambiente. Não se deve mantê-lo nas mãos, e muito menos colocá-lo sobre a mesa do entrevistador.

RP: Como evitar o nervosismo?

LRB:   Existem duas atitudes anteriores à entrevista e uma no momento em que ela acontece que reduzem substancialmente o grau de ansiedade e nervosismo:       

1) Estudar bem o cúrrículum que irá apresentar para assegurar-se de que vai saber apresentar os detalhes que lhe forem perguntados com total naturalidade e segurança.

2) Lembrar que a pessoa que irá entrevistá-lo tem o máximo interesse em descobrir em você as qualidades que precisa encontrar no profissional que está buscando, e só candidatar-se se você acredita realmente que possui essas qualidades.

3) Ser absolutamente honesto nas respostas, jamais tentar impressionar com experiências que não teve ou falar do que não tem certeza.

RP:
Atraso é permitido? O que fazer quando isso acontece?

LRB:   Em situações normais, não se permite atrasos. Se o motivo tiver sido realmente grave ou justificável, é preferível ligar antes de chegar lá, desculpar-se por telefone explicando o motivo e perguntar de forma gentil se o entrevistador ainda estaria disponível para a entrevista. Via de regra, diante de tal atitude o entrevistador, caso não possa mais aguardar, em função de outros entrevistados, costuma marcar um novo dia ou horário. É sempre bom lembrar que motivos de "atraso de condução" não são justificativas válidas nem simpáticas. Sair com a necessária antecedência para evitar imprevistos faz parte do cotidiano de quem se planeja, e isso é levado em conta, principalmente se for um dos quesitos do cargo desejado.

RP: Existe alguma dica para conquistar o emprego na entrevista? Qual?

LRB:   Não existe nenhuma "receita de bolo" que irá garantir esse resultado. O entrevistador é um profissional que foi treinado para avaliar todo um conjunto de quesitos, e não para se deixar impressionar por um único aspecto a que se prenda o entrevistado para tentar "ganhá-lo". Se isto prevalecer será porque o entrevistador, ou não está suficientemente preparado para a função, ou se deixou levar por outros interesses que não o de preservar a isenção e a lisura do processo seletivo. E se isso aconteceu, não há nenhuma regra que se aplique: aí tudo pode acontecer! Portanto eu diria que o melhor mesmo é não sair procurando por "dicas", mas sim se preparar adequadamente para o momento da entrevista. Se seguidas essas regras simples, as chances serão bem maiores. Mas o que vai decidir mesmo, ainda que sejam cumpridas à risca, é o conhecimento que é exigido para o cargo, e a resposta que o empregador espera do seu futuro ocupante. Vencer só a entrevista não é tudo: a confiança em si para desenvolver a atividade depois, sim. Isto é o principal!

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O jornalista Luís Fernando Coutinho solicitou consultoria sobre tema de RH para publicação na revista “Minha Revista”, da qual é colunista para o assunto. O texto repassado ao profissional é exibido abaixo:

 

20 dicas para conservar seu emprego:

1) Trate de conhecer muito bem tecnicamente o trabalho que executa, não se contentando em entender o  "mínimo necessário".  Pesquise, conheça tudo o que estiver ao seu alcance, busque saber mais sobre o que lhe é' disponibilizado, tentando desenvolver-se por esforço pessoal. 

2) Verifique se o seu perfil está adequado `a função que executa, se você se identifica com as tarefas que lhe são impostas pelo cargo. Se isto não estiver acontecendo, é preciso coragem para expo-lo para não correr o risco de perder o respeito das pessoas e ser afastado depois por incompetência. 

3) Procure se mostrar sempre disponível para o trabalho, o que não significa submeter-se ao comodismo alheio.

4) Não se conforme com uma maneira única de resolver as coisas: ouse experimentar formas novas. 

5) Prontifique-se a enfrentar desafios: não coloque obstáculos antes de analisar diferentes caminhos e se dispor a correr riscos, desde que calculados e com margem prováveç de acerto. 

6) Busque atualização constante em relação a novas tecnologias e métodos de trabalho. 

7) Trabalhe com metas pré-definidas. Se não lhe couber estabelece-las, busque conhecer as metas de sua área e perseguir seu cumprimento. 

8) Separe pessoas de problemas: quando algo o incomodar, atenha-se ao que precisa ser corrigido, ao invés de buscar de quem é a culpa. Isso se aplica a reuniões:  enfocar os fatos, em vez de tentar atingir quem os provocou. 

9) Seja sempre objetivo nas colocações:  vá direto ao assunto, sem rodeios nem "panos quentes", mas sempre com respeito. 

10) Em posição de comando de equipes, lidere com descontração e avalie com critérios claros,  encorajando os outros a proceder da mesma forma. 

11) Reserve sempre um tempo para pensar e planejar, antes de agir intempestivamente.  Quinze minutos antes do expediente, e quinze apos encerra-lo, para avaliar o seu dia, está de bom tamanho.
 
12) Evite tensões emocionais ou físicas indispondo-se com companheiros de trabalho ou com superiores.  Sempre que algo não parecer claro, peça para conversar e expor com serenidade o  problema ou a dúvida, para nãp gerar interpretações errôneas e nem acumular mágoas. 

13) No trato diário com pessoas, adotar sempre um posicionamento claro e transparente, sem disfarces ou vias indiretas. 

14) Fazer uso do "sim" e do “não" como decorrência de análise imparcial, não tendenciosa, explicando sempre os motivos que os sustentam. 

15) Estar sempre atento para não invadir o espaço vital das pessoas, nem abandonar o seu próprio por medo, negligencia ou insegurança. 

16) Adotar uma postura única no lidar tanto com superiores ou com seus pares: jamais ser na ausência deles o que não consegue ser em sua presença. A recíproca também é verdadeira: não queira ser na presença deles o que não é na realidade.
 
17) Nunca busque seu referencial no que os outros ganham para avaliar o seu próprio salário.  Compare-o com o que você oferece em termos de resultados. Você tem que ganhar não pelo que você traz no curriculum e nem pelo que o seu colega de função ganha, mas pela sua efetiva contribuição dentro de sua função.  Sempre que você se sair bem em tudo o que assumir, seus chefes poderão até não ter como lhe dar o o salário que você lhes pede, mas jamais acharão que você não o merece. 

18) Procure aprimorar sua comunicação.  Transmita as suas mensagens com clareza, sem ser conciso demais e nem prolixo, estendendo-se mais do que o necessário.  Depois de transmiti-las, certifique-se de que foram devidamente entendidas.  E' claro que um superior não vai gostar de ouvir você falar:  "Por favor, repita o que eu disse!", mas vai entender se você disser: "Não sei se consegui me expressar direito: ficou claro para o senhor ou gostaria que eu explicasse melhor?" 

19) Sempre que alguma coisa que não lhe cabe fazer lhe for "empurrada", faca o outro entender que tem boa vontade em "ajuda-lo", mas deixando nas entrelinhas que aquilo foge `a sua rotina, tipo assim: "Que sorte que você me pegou num bom momento! Hoje vai dar para fazer isso pra você!” 

20) Acostume-se a administrar seu tempo, estabelecendo momentos para planejar, para executar e avaliar suas atividades.  Deixe as pessoas perceberem que você estabelece horários e os respeita, tanto os seus quanto os delas, e logo elas começarão a não saltar de pára-quedas na sua agenda.


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Entrevista concedida a João Alencar, jornalista de uma das secretarias municipais de Recife, em Pernambuco

 

Por que a algumas pessoas que até gostaríamos de ter mais próximas, nós mesmos colocamos obstáculos à aproximação, e outras que conhecemos bem menos nos atraem tanto, ainda que se saiba quase nada delas?

 

Resp. – Tenho pra mim que seja porque não atingiram o momento delas como “destinatárias” das mensagens que fazemos chegar aos outros, e que talvez teríamos a atribuição de enviar. Apenas as que já atingiram esse patamar de entendimento é que se aproximarão, assim como nós delas.

 

E como é que você, como mensageiro do processo, chega a uma resposta como essa que ofereceu para a questão anterior?

Resp. – Não sei. Simplesmente começo a escrever e elas vão aparecendo na tela sem que eu pare pra pensar no que vou teclar.  É mais automático do que racional.

 

Vê isso como uma espécie de “psicografia” que lhe chega de um plano espiritual?

Resp. – O que sei é que não o sinto com esse formato que se costuma dar ao processo, e até me vem um sentimento de reagir de forma contrária a essa ideia, como se fosse uma espécie de “não”. Sei apenas descrever o que percebo, sem preocupação alguma com a origem nem com o destino, através de uma idéia ou pensamento instantâneo seguido de uma vontade que me força a interromper o que esteja fazendo para registrar o que sinto naquele mesmo instante, e divulgá-lo por um instrumento qualquer. Pode ser um meio eletrônico, onde sinto ser necessário selecionar pessoas em especial ou não, dependendo do conteúdo e por um critério que não escolho de forma lógica. Pode ser por um livro que precise iniciar, por um texto que dependa de uma pesquisa minha, por uma frase em forma de pensamento, ou até por uma simples imagem que passe algum tipo de entendimento. Nunca sei o que vai sair como resultado. Apenas a idéia surge clara na mente requerendo ser repassada a alguém que irá recebê-la, mas não sei quem, onde se encontra, nem quantos serão os receptores.  Então simplesmente faço aquilo, sem buscar explicar porque tudo acontece.  Aliás, odeio a idéia de me ver como “profeta”, mensageiro do além ou responsável por uma “missão”. Esse pensamento entra em conflito com sentimentos fortes e com outras convicções que trago dentro de mim acerca de minha própria realidade e a daquela que me cerca.

 

Mas como explica então o que é levado à prática?

Resp. – Não sei dizer. Apenas que não procuro explicá-lo, e nem se isso é ou não um papel delegado por uma “força” qualquer externa ao que possa entender. Racionalmente nunca desenho a figura dessa tal força em minha cabeça, pois que me enxergo repetindo a mesma história que as pessoas vêm protagonizando há milênios para se sentirem especiais e “escolhidas”.  Mas uma coisa é o que sinto através do meu racional, e outra é o que sei que preciso fazer porque o sinto presente demais em meu emocional para ignorá-lo. A questão é que não procuro encaixar isso em nenhum modelo, ou dar a ele uma explicação à luz da minha lógica. Apenas sigo meu instinto em vez de dar um nome a qualquer elemento do contexto todo. Penso que se isso é algum tipo de “papel delegado” por uma força desconhecida qualquer, seja que nome lhe dêem, ou se é algo criado dentro de minha própria mente, para mim é o que menos importa. O que importa é o que eu sinto, preciso, e externo. O resto não passa da necessidade humana de dar explicação pra tudo, coisa com que eu não me preocupo, e procuro ficar atento para não entrar nesse tipo de coisa! Se existe mesmo a tal força, não cabe a mim afirmá-la ou negá-la para que continue existindo, pois que sua natureza seguirá a mesma, independente de mim. Meu papel é estar aberto ao sim e ao não. Optar pelo sim ou pelo não é demais pretensioso para meu entendimento. Qualquer dos lados posiciona seu defensor como “dono da verdade”, daí que vejo “o caminho do meio” como a forma mais honesta dentre todas, e a mais despretensiosa. Aceite-se apenas buscador e espere. Se a verdade for possuidora de escolhas, ela escolherá chegar a você ou não. O resto todo não vai além da vaidade de dominar o conhecimento. 

 

E o que tem de errado em encaixar o que descobrimos em um modelo conhecido?

Resp. – Nada específico no que toca ao “errado”. Apenas eu rejeito a idéia de uma forma natural e espontânea e procuro minha própria zona de conforto, que é a de não enveredar por esse caminho comum das crenças e interpretações tradicionais. Vejo um universo pleno demais de enigmas para que humanos de um planetóide qualquer como o nosso se arrogue a sabedoria de querer explicá-lo ou encaixá-lo em sua "caixinha de miudezas", reservando uma gavetinha para cada uma delas. Será mesmo que precisamos entender tudo o que ele nos apresenta? Vejo a busca uma necessidade absurdamente necessária, a ponto de não passar um dia sequer sem sair em busca de alguma resposta, mas contrariamente a isso a inteligência me lembra que nunca conseguiremos dominar o conhecimento dessa imensidão toda, e então me recolho a minha insignificância de alcançar um degrauzinho de cada vez, sem me preocupar em dar um salto maior do que minha perna alcança, e muito menos pensar que cheguei à resposta final. Nisso que você me perguntou, por exemplo, sobre o porquê do que faço a partir dos pensamentos – e sentimentos – que me brotam na mente, eu reconheço haver muita coisa acima do que conseguiria explicar à luz da minha própria lógica e de tudo o que absorvi de conhecimento até aqui. Ficaria louco se tentasse explicá-los por tais parâmetros. Sei que muitos também sentem o mesmo. Apenas ao chegar nesse ponto uma enorme parcela dessas pessoas insiste em encaixá-las em alguma “caixinha”, ou se arvoram ao patamar de se sentirem “mensageiros de Deus” ou de alguma força que se sobrepõe a tudo o que conhecem. Ao contrário disso, eu sinto que, atingido esse ponto, é hora de parar onde estou e não ficar tentando pular de degrau. Se a resposta existir, em algum momento ela chegará até mim. Se ainda não existir – e pouco importa qual seja sua origem – fica claro que só me resta esperar ou esquecer, em vez de me colocar naquele patamar de “anunciar a Nova ao mundo”. Meu papel é falar apenas do que entendo, ou provocar as pessoas para que elas passem pelo mesmo processo de questionamento por que passei. Mas encontrar ou não a resposta é papel de cada um, e fazer o mesmo caminho mais ainda. Apesar de haver atuado como professor minha vida inteira e parecer incoerente o que vou dizer, não acredito que ninguém ensina nada para pessoa alguma. Apenas oferecemos algumas chaves – que é o papel de quem se propõe a lidar com o conhecimento – mas quem abre ou não a porta do depósito para quardar o que lhe parece importante é quem o recebe.

 

Essa forma tão especial de pensar o que o cerca não induz as pessoas a pensar que toda a vaidade que vê nesses “donos da verdade” também se faz presente em você, e na realidade o que deseja é se mostrar diferente, ou até superior à maioria das pessoas?

Resp. – Já li em algum lugar que uma coisa é como nos vêem, e outra é como realmente somos. Não sou responsável pela forma como me possam enxergar ou pelo que as pessoas pensam a meu respeito. Só entendo daquilo que trago em mim mesmo, e nem sempre de uma boa parte destas últimas. Mas minha verdade não precisa ser reconhecida – e já falamos disso – para que seja autêntica. Só eu preciso saber que é. E mesmo quando esse lado “especial” de mim, que você mencionou, pareça arrogante aos outros, em mim bate apenas como uma forte vontade interna de ser eu mesmo, ainda que o resto do mundo esteja caminhando em sentido contrário. Arrogância é uma questão que depende da relação entre quem exibe e quem observa. Essa vontade de que falo está em mim, e não depende de quem quer que seja para se fazer presente. Então não a exibo, no sentido da palavra, apenas a expresso como parte do que sou. Essa é a diferença. Mas sim:  não importando o que sejamos ou o que mostremos, entre os que nos observam seremos sempre julgados pelos parâmetros que trazem, e não pelo que somos realmente. Isso é inevitável, e é um erro fingimos ser o que não somos na tentativa de ampliar o número dos que gostam daquilo que é mostrado.

 

 


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