16. A vida nômade de consultor

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Se você é daqueles que gosta de passar a semana atrás de uma mesa de escritório e o final de semana vestindo pijamas, então escolha fazer qualquer coisa que não seja consultoria de empresas, pois seus clientes estarão espalhados pelo mundo e você terá que estar exatamente onde eles estão, e não necessariamente no lugar que você escolheria estar.


Exatamente isso:  daqui a três anos, em 2027, estarei completando quatro décadas de quando pisei nessa estrada, onde cada semana me trazia o "frisson" de não saber onde estaria na próxima, e isso, querendo ou não, nos vicia o corpo e o espírito! Ah, se vicia! A gente aprende a ser inquieto, a não passar duas semanas no mesmo lugar, a não fazer as mesmas coisas todos os dias, a viver de desafios, a descobrir coisas novas a cada momento, a aprender a contar apenas consigo mesmo para o que der e vier, já que estará bem longe do seu mundo conhecido.


Ser consultor não é ter desafios, mas viver um desafio que nunca termina, é se acostumar com o inusitado, é tirar soluções num estalar de dedos quando os recursos não estão à mão.  Não foram poucas as situações em que precisei dividir as poucas horas da noite entre o sono e o trabalho que teria de "tirar da cartola" para aplicar de manhã, simplesmente porque todo o material de um longo treinamento, despachado do Rio, nunca chegou ao destino. Mas 30 gerentes que estariam esperando por mim de manhã não tinham nada com isso, e teriam que receber o produto pelo qual pagaram. Ele precisaria então sair do zero e estar pronto para ser aplicado às 8 da manhã, com o conteúdo escrito literalmente "nas coxas", mas onde o sentido figurado de algo feito “de qualquer jeito” não era uma opção.


Como se diz na arte,  "the show must go on": meus alunos tinham pago para ter o resultado esperado, e eles o teriam com material ou não, pudesse eu dormir ou não.  E acreditem: de manhã o treinamento estava todo rascunhado nas folhas de um caderno e na minha cabeça, e o resultado, nesse caso específico, foi tão surpreendente que aquele conteúdo, nascido de improviso, acabou entrando para a grade regular da empresa como um dos mais procurados pelos nossos clientes.


Resumo da ópera: quando você se predispõe a ser consultor, não espere que alguém vá lhe perguntar se você aguenta passar noites em claro e sair cedo para a sala de aula ou para uma reunião com a direção, se você vai ficar preso na Trânsamazônica com uma boiada rodeando seu carro; se precisará dar aula sentado num tronco após seu local de treinamento, no meio do nada, ter sido invadido pela água da tempestade noturna; se o banheiro de sua pousada é frequentado por pererecas e lagartixas para fugir das tórridas noites da caatinga em que seus alunos o aguardavam; ou se você fica desconfortável em passar quase 20 horas num voo com múltiplas escalas.


Sim. É verdade que a empresa que eu representava era "top" de linha e, em se havendo, me colocava em hotéis 5 estrelas nos destinos, motorista esperando para me levar pra todo lado, e tudo o mais que o mais exigente dos profissionais poderia esperar em termos de respaldo institucional e conforto. Só que essa realidade não se estendia a todos os lugares onde eu chegava, o que significa que, em algumas cidades no meio da Amazônia, o melhor hotel da cidade tinha colchões em que eu podia sentir o estrado da cama me machucando as costelas, ou acordava no meio da noite com a perna sendo literalmente sugada por percevejos.  


Que não se esperasse, então, por todo esse "brasilsão de meodeos", encontrar hotéis do mesmo padrão em que estivera no centro da Times Square, ou do Tangará no coração da capital paulista. O cotidiano do meu trabalho não incluia o luxo de escolher entre a realidade desejada e a possível, ao me deslocar para o local onde o trabalho seria executado. Ou se aceitava o que existia lá, ou não se aceitava o trabalho. A regra que irá valer, portanto, é a do velho axioma do "não tem tu, vai tu mesmo!".  

Assim, após não saber sequer onde eu estaria na semana seguinte por mais três décadas, seria impensável desejar que o travesseiro do hotel local fosse tão confortável quanto o que eu tinha em casa.  Diante de minha realidade de profissional nômade acostumado aos destinos mais improváveis, se tem uma palavrinha que nunca encontraria no meu dicionário, nos mais de 30 anos de carreira, é "rotina". Customização só se aplicava ao que era entregue ao cliente,  não ao consultor em questão, que precisaria se contentar com o possível para a realidade local, sem deixar que isso interferisse na qualidade do trabalho.

Ser consultor, ao fim de tudo, é tornar-se PhD no diferente:  acordar todos os dias em um lugar diferente, entregar um trabalho diferente pra cada cliente, conhecer pessoas diferentes em cada novo projeto, e encontrar realidades totalmente diferentes das já conhecidas para aprender tudo o que consiga com essa aquarela de cores indescritíveis que a profissão nos revela a cada dia.


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