15. Vida de Escritor
“Nós, homens
do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos, e
não sem motivo: nunca nos procuramos! Como poderia acontecer que um dia nos
encontrássemos? Com razão alguém disse: Onde estiver teu tesouro, estará também
teu coração.”
Nietzsche
O folclore popular usa uma conhecida parábola sobre trabalhadores de obra para ilustrar as diferentes formas de enxergar uma mesma coisa. Ela descreve a experiência de um homem que, sob um sol escaldante, observava outros três trabalhando numa construção. Eles usavam marretas, enxadas e britadeiras para limpar o terreno quando ele se aproximou do primeiro deles e lhe perguntou: “O que você faz aí?”, ao que o homem respondeu: “O que poderia estar fazendo? Quebro pedras!”. Ele agradeceu, foi até o segundo e perguntou-lhe a mesma coisa: “O que você faz aí, meu amigo?”, e a resposta do homem veio sem hesitação: “Tô defendendo meu salário, senão eu não como!” Em seguida foi a vez do terceiro, para quem repetiu a mesma pergunta que fizera aos outros dois: “E aí, meu amigo, você faz o que?”. O homem ergueu-se para olhá-lo, com o cabo da enxada entre as mãos, e estendendo um dos braços para mostrar o enorme terreno que tinha atrás de si, pareceu sorrir com os olhos enquanto respondia: “Estou construindo uma catedral!”. Posso dizer que essa singela parábola, lida num livro de Malba Tahan ainda nos tempos de escola primária, me marcaria profundamente a ponto de nortear minha percepção de tudo o que eu faria a partir de então.
Com o advento da internet essa visão de mundo foi significativamente ampliada, pois agora eu já podia ver na tela de um computador como as pessoas se comportavam em relação aos feitos humanos, e perceber de perto como elas reagiam aos textos que começara a produzir a partir da imersão crescente na vida de escritor. Passei a ter percepções ampliacas não apenas sobre como uma grande massa de pessoas se expressava, mas também como pensava e, dessa forma, construia a estrutura que dava sustentação às suas visões de mundo. Descobri que o que se entrega a uma outra pessoa não diz respeito, necessariamente, ao valor do presente em si, mas à capacidade do presenteado de percebê-lo e aproveitá-lo em sua plenitude. Descobri ainda que o que faz a diferença entre um escritor de verdade e outro medíocre pode não repousar exatamente na qualidade do que produzem, mas no uso que fazem dela, como naqueles trabalhadores de obra: todos faziam a mesma coisa e até no mesmo padrão, mas no significado do que faziam é que se escondia toda a diferença.
A qualidade, para um escritor, pode ser medida pela fama e
pelo lucro que suas produções conseguem proporcionar, enquanto que a outro não haverá
qualidade em nada do que faça se o conteúdo produzido não vá fazer qualquer
diferença na vida de alguém daqui a 100 anos. Enquanto o pensamento de um está
voltado para um resultado instantâneo e estrondoso “enquanto estiver vendendo
livros”, o outro estará concentrado no que seus bisnetos encontrarão como
resultado do que ele semeou. Metaforicamente, uns escolhem plantar limoeiros, e
outros Sequóias Gigantes, onde a diferença não se resume à árvore, mas também ao
semeador: ao das Sequóias, pouco importa se daqui a séculos alguém saberá quem
plantou aquela árvore extraordinária numa floresta inteira de árvores comuns.
Ao plantador de limoeiros, o que importa é quanto obtém de retorno com a venda
de seus limões.
Contrariando a maioria, quero seguir pensando a obra como uma estrela que brilha no palco sob os holofotes e o aplauso do público, e o autor como o dramaturgo que assiste a tudo dos bastidores, e nem é conhecido pela platéia que buscará pela peça décadas, ou até séculos, após já ter deixado o planeta. A vaidade do homem, por um lado, e sua fragilidade pelo outro, impelem-no a uma busca incessante pelo palco (para ser aplaudido), ou por um mentor que lhe oculte a pequenez, já que é bem mais difícil ser luz do que reflexo.
Mas existem autores que prezam por escapar a esse padrão binário em relação ao que produzem, recusando o protagonismo do espetáculo que trazem à vida. Sustentam que a atenção deve recair sobre a mensagem, e não sobre o mensageiro, colocando-se apenas como fonte, a não como o ponto de luz para o qual todos os olhares convergem. A obra é que deve seguir seu curso, sem se deixar deter por opiniões menores.
Não existe dúvida quanto ao poder do julgamento raso para destruir, em poucos instantes, o que exigiu anos de dedicação para ser construído. Mas tal constatação, ao invés de barreira, atuará de modo a que o “semeador de Sequóias” robusteça ainda mais o poder de suas sementes, que não deve ser ofuscado nem mesmo – e muito menos – pelo semeador.
Todo homem de letras sabe que sempre encontrará quem valorize ou desvalorize qualquer obra que produza, mas que isso fala das pessoas e suas visões de mundo até mais profundamente do que do conteúdo em si. Ele tem como esperado encontrar comentários sobre o que publica – muitas vezes até elogiosos – porém direcionados às mais superficiais e menos significativas de suas publicações, e passando ao largo justamente das que realmente importam. A razão, mais uma vez, tem mais a ver com quem lê do que com quem escreve, ou até mesmo com o conteúdo produzido.
O que incomoda ao criador que conhece suas obras dificilmente recairá sobre as críticas. Ao contrário, ela normalmente as toma como um fator regulatório para aprimorá-las ainda mais. O desafio é essencial para que isso aconteça, e um leitor amorfo ou pouco exigente jamais funcionará como estímulo para um escritor que cobra mais de si mesmo do que é cobrado pelos que o leem. O que o incomoda – e o desestimula sobremaneira – é o superficialismo dos que se prendem aos aspectos menos relevantes de suas publicações, já que a ênfase não está nele, enquanto autor, mas na profundidade da obra em si, que acaba ignorada por aqueles que se contentam com o superficial, o que o remete a questões como esta: “Serei eu a me revelar “profundo demais” – e, portanto, “chato”, como argumentam alguns – para não se darem ao trabalho de ler algo? Ou serão eles que escolhem permanecer na parte mais rasa da praia simplesmente porque não sabem nadar?”
Não há nada mais
gratificante a um escritor do que revisitar e aprender com sua própria obra,
o que lhe permite aprofundar a análise de seus textos e extrair deles
aprendizados que talvez passassem despercebidos em uma leitura convencional.
Para esse pensador será sempre a mensagem,
e não a figura do autor, o que importa, uma vez que a fonte é finita,
mas a obra é eterna. Essas revisitações à própria obra possibilitam mergulhar em
seus textos como um leitor crítico, descobrindo
nuances e aprendizados que talvez não fossem tão evidentes num primeiro
momento. E daí a importância da crítica externa acontecendo em paralelo para construção
do olhar analítico, que pode trazer insights valiosos à evolução do seu
pensamento e estilo, além de inspirar novas ideias e direcionamentos para
trabalhos futuros.
A melhor forma de fazer isso é identificá-los, subtraí-los de seus esconderijos nos recônditos do ser e trazê-los à luz da compreensão para que nos exponham suas vulnerabilidades, em vez de nos deixarmos, nós próprios, permanecer fragilizados e dominados por eles. Faz-se necessário promover encontros mais frequentes com nossa essência, fazer as pazes com ela para, finalmente, transformá-la de novo em parte indivisível do eu conhecido.
Por último, fundamental se faz identificar a natureza dos elementos agora banidos que produzem desencontros – ameaças latentes para esse Eu agora integral – de forma a manter segura distância de tudo o que lhes permita retornar em metástase e se reestruturarem como novas células cancerígenas do espírito.







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